A Complexidade do Gênero e da Polaridade: Além do Equilíbrio Simples
As discussões que envolvem sexo, gênero ou polaridade são notoriamente difíceis no mundo atual. Nossas perspectivas frequentemente se tornam confusas devido à desinformação, a arquétipos tradicionais e a associações de gênero arraigadas. A complexidade é acentuada pelo trauma inerente à história coletiva humana em relação ao sexo e ao gênero ao longo da história, somado aos nossos próprios traumas pessoais relacionados a esses temas. Há muita dor e medo envolvidos, e visto que essas discussões afetam absolutamente todos, é fundamental abordá-las com clareza.
O Mito do Equilíbrio Feminino-Masculino Universal
Se você já passou algum tempo em círculos espirituais da Nova Era, provavelmente ouviu a afirmação de que cada pessoa possui energias feminina e masculina dentro de si, e que o estado ideal de ser é alcançado quando essas energias estão equilibradas. Argumenta-se frequentemente que isso é necessário para o alinhamento e para ter um relacionamento saudável.
Este artigo propõe uma perspectiva alternativa, que pode incomodar algumas crenças estabelecidas.
A ideia de que o objetivo é equilibrar as energias feminina e masculina reside no reconhecimento da dualidade no universo. Parte da imagem da criação é a existência do masculino e do feminino, permitindo que todas as coisas sejam categorizadas em um ou outro “campo”.
Filosofias que defendem isso focam, geralmente, em qualidades. Por exemplo, traços como assertividade, direção, estabilidade, força e ação são colocados no campo masculino, enquanto receptividade, intuição, nutrição, sabedoria e criatividade são associados ao feminino. A premissa então sugere que possuir em excesso qualquer qualidade dentro de uma polaridade leva à sua “sombra”. Assim, a saúde e o alinhamento exigem o cultivo de ambos os lados, feminino e masculino.
Entretanto, a verdade é mais complexa.
A Perspectiva da Oneness e da Polaridade Escolhida
Em um nível mais elevado de realidade, o que é verdadeiro é a **oneness**, a não-dualidade – o universo inteiro está dentro de você, você é um fractal do universo maior. Isso significa que todas as coisas, incluindo masculinidade e feminilidade, estão contidas em você.
Ao mesmo tempo, o que também é verdadeiro é a **dualidade**. Neste tempo-espaço, você fez a escolha de experimentar a dualidade, de vivenciar a vida através da perspectiva de um ser humano físico, com um sexo, gênero ou polaridade específicos. Isso é verdade mesmo para aqueles que não se encaixam nas categorias típicas de masculino/feminino, pois representam variações das duas polaridades.
Essa escolha não foi acidental. Você a fez porque sabia que serviria à sua expansão pessoal e à expansão da consciência universal. Assim como você decidiu ser humano, você decidiu polarizar. Você veio para ser uma expressão única dessa polaridade, pois isso serviria à sua encarnação específica. Não é algo a ser transcendido ou corrigido.
Para a maioria das pessoas, incorporar plenamente sua expressão única, natural e autêntica da polaridade escolhida é o estado de alinhamento com seu propósito de vida, e, consequentemente, com sua forma de pensamento e encarnação física.
A Relação entre Corpo Físico e Energia
Um ser humano não possui a plasticidade de polaridade sexual que algumas outras espécies exibem. Os cromossomos sexuais humanos carecem dessa flexibilidade; uma decisão tomada muito antes da existência da espécie humana. A polaridade física não é tão maleável quanto muitos gostariam que fosse. Se o corpo humano fosse totalmente flexível, ninguém precisaria de cirurgias ou terapias hormonais de mudança de sexo.
Este é o primeiro grande ponto de divergência com o argumento de que todos possuem ambas as polaridades e que o ideal é o equilíbrio perfeito. Para que essa afirmação seja válida, seria necessário divorciar completamente a energia do corpo físico. Ou seja, o corpo e sua polaridade teriam que ser entidades independentes, sem conexão com a psique ou a energia da pessoa. Isso não é possível; essa não é a forma como o universo opera.
Há uma profunda interconexão entre esses aspectos. O que acontece em um nível afeta os outros. Sua encarnação física é uma extensão ou condensação das suas dimensões energéticas.
Se fôssemos um equilíbrio perfeito de masculino e feminino, veríamos corpos naturalmente intersexo ou sem sexo definido, com grande plasticidade. Se essa plasticidade existisse, os homens poderiam simplesmente desenvolver a capacidade de dar à luz ao cultivar seu lado feminino.
Você não incorpora tudo de uma vez nesta encarnação. Se sua encarnação fosse um reflexo direto da mais alta dimensão da verdade, você não teria problemas em se transformar em uma árvore, muito menos em se transformar em uma mulher, um homem, ou apagar completamente o sexo e o gênero.
Embora todos caiam em algum lugar na escala da polaridade (e estamos falando da polaridade original, e não de estratégias adaptativas), a regra geral é que o bem-estar mental, emocional e físico de uma mulher começará a declinar quando sua experiência de vida exigir que ela incorpore consistentemente a polaridade masculina. Isso não é compatível com a encarnação feminina. Da mesma forma, o bem-estar de um homem declinará se ele for forçado a incorporar consistentemente a polaridade feminina.
Para que a filosofia do equilíbrio fosse verdadeira, você teria que, ou divorciar o corpo da energia inteiramente, ou afirmar que nascer homem ou mulher significa ter um excesso de uma energia que é inerentemente “ruim” e, portanto, precisa ser compensada (mulheres cultivando masculinidade, homens cultivando feminilidade).
Críticas à Crença no Equilíbrio
Considere essa ideia pessoal e globalmente e perceba a resistência inerente a ela em relação à sua própria encarnação.
Muitas de nossas ideias atuais sobre espiritualidade e despertar são um conjunto de filosofias vindas do Oriente. Muitas vezes, elas são tratadas como doutrina perfeita, mas ignoram a conexão intrínseca entre corpo e espírito, sendo resistentes à integração corporal. Algumas tradições veem todas as formas — incluindo o corpo, o sexo e o gênero — como ilusões vazias. O objetivo, em alguns casos, é desidentificar-se do corpo e transcender toda forma temporal. Isso é problemático.
As tradições que mais influenciaram a espiritualidade ocidental moderna são o Taoísmo, o Budismo e o Yoga. É importante notar que essas tradições discordam sobre a classificação dos princípios centrais de masculinidade e feminilidade:
* **No Daoísmo:** O Yin (feminino) está associado ao vazio, à escuridão e ao potencial do qual o movimento surge. O Yang (masculino) é a força ativa de criação e luz.
* **Na Filosofia Yogue:** Shiva (masculino) representa a pura consciência imutável e a quietude, a testemunha silenciosa. Shakti (feminino) é a energia criativa cinética que faz tudo se manifestar.
* **Nas tradições Budistas:** A compaixão, frequentemente vista como feminina, é considerada masculina em algumas escolas.
Não há um acordo único entre as filosofias orientais.
Muitos que defendem o equilíbrio interno apontam para o conceito de Yin e Yang. Contudo, na China antiga, a origem do conceito, acreditava-se que o sexo de uma criança era determinado pela dominância do Yin ou Yang no momento da concepção, o que tornava a criança naturalmente dominante em uma polaridade — um desequilíbrio. Contudo, esse “desequilíbrio” era visto como um estado normal e saudável, essencial para a harmonia nos relacionamentos humanos, na sociedade e no universo. A visão chinesa não moralizava ou patologizava as diferenças naturais como fazemos no Ocidente.
Além da influência oriental, essa perspectiva popular foi moldada pelo psicólogo Carl Jung, que estudou profundamente o pensamento oriental (incluindo ioga e o I Ching do Daoísmo). Jung usou os conceitos de Shiva/Shakti e Yin/Yang ao afirmar que todo homem possui um lado feminino inconsciente e reprimido (*anima*), e toda mulher possui um lado masculino inconsciente e reprimido (*animus*), sendo que a completude psicológica exige a integração de ambos. Jung tratou o sexo biológico como um fato meramente biológico que contribuía para a persona, criando uma “unilateralidade” que a psique tenta corrigir, visando um estado de *bgenderismo* interno.
Jung, no entanto, falhou em reconhecer o quanto suas próprias classificações eram influenciadas pelos papéis de gênero rígidos de sua época, que não refletiam a verdade sobre masculinidade e feminilidade.
Consciência da Qualidade vs. Busca pelo Equilíbrio
Para qualquer qualidade que classificamos como masculina ou feminina, existe uma expressão consciente dessa qualidade e uma expressão inconsciente (sombra).
Tomemos a **coragem** como exemplo (qualidade masculina):
* **Consciente:** Inspira outros, permite superar o medo, constrói confiança.
* **Sombra:** Leva a situações perigosas desnecessárias, causa *burnout* por estresse constante, atropela o bom senso.
Tentar ter sucesso na vida definindo quais qualidades se encaixam em qual campo e buscar um equilíbrio perfeito através de uma proporção exata é uma tarefa abstrata e impossível.
Uma abordagem muito melhor é simplesmente se comprometer a ser **consciente** em relação a *qualquer* qualidade que você encontre, interna ou externamente, e pensar em **antídotos**.
Ser consciente de uma qualidade significa vê-la por completo, incluindo seus benefícios potenciais e seus prejuízos potenciais. O objetivo é garantir, no melhor de suas capacidades, que você esteja operando a partir da expressão benéfica da qualidade, e não da expressão prejudicial.
Usando a coragem como exemplo: você garante que a usará para inspirar, superar o medo e construir confiança, e não para se colocar em perigo ou negligenciar o bom senso.
Ao pensar em antídotos, e não em opostos lógicos, você pode neutralizar o aspecto prejudicial de uma qualidade. O antídoto para os efeitos negativos da coragem pode ser a sabedoria ou a autocompaixão, que você desenvolve em paralelo ou como um contraponto à coragem existente.
Autonomia versus Interdependência
Aqueles que se opõem à polaridade consciente frequentemente argumentam que o objetivo é ser completo em si mesmo, não dependente de outros para as necessidades ou a sensação de totalidade. Para muitos, a ideia de precisar de outra pessoa gera vulnerabilidade excessiva, levando-os a buscar justificativas espirituais para serem “ilhas” independentes e autossustentáveis. Assim, os relacionamentos se tornam interações entre duas ilhas completas.
Pessoas estão, em geral, tão traumatizadas em seus relacionamentos que evitam a ideia de harmonia alcançada através de meios externos. Isso faz com que nosso bem-estar pareça dependente de algo fora de nós, e muitos não têm coragem de admitir essa vulnerabilidade inerente.
Muitas pessoas que aderem à filosofia da dualidade de gênero usam-na como uma forma de evitar enfrentar a dor e o trauma relacionados ao sexo, gênero e polaridade, bem como a dor da sociedade humana atual. Elas usam essa crença para encobrir sombras. Seria mais produtivo questionar: “Se essa ideia de que todos têm ambos os lados fosse completamente falsa, o que isso significaria para mim? E por que isso seria tão ruim?”
A Verdadeira Questão: Crueldade Humana
A humanidade precisa acordar para o fato de que sexo, gênero, polaridade, papéis e normas de gênero **não são** o problema em si. O problema real é a **crueldade humana**.
Em uma sociedade onde sexo e gênero foram usados contra os melhores interesses das pessoas por milênios, normas de gênero não refletem necessariamente a verdade sobre a masculinidade ou feminilidade, nem a polaridade saudável.
A humanidade está no início do processo de desvendar essa confusão. Muitas pessoas estão seguindo o caminho tentador de usar ideias como a “igualdade de gênero” ou “ausência de gênero” para contornar a bagunça, em vez de enfrentá-la. Tentar estabelecer a igualdade no sentido de direitos humanos através da **semelhança** é um erro enorme que está destruindo o tecido dos relacionamentos entre homens e mulheres. Ao tentar eliminar a polaridade, tornando todos agênero ou *bgender*, observa-se um colapso no bem-estar das pessoas e nos relacionamentos entre homens e mulheres, o que se propaga para toda a sociedade.
Se o princípio da priorização do bem-estar de cada membro da sociedade fosse aplicado, a sociedade seria estruturada para prevenir o sofrimento. Nenhuma mulher se encontraria impedida de ter sua própria renda por ser mulher, nem seria forçada a deixar um bebê imediatamente para trabalhar fora, como se precisasse funcionar como um homem. Nenhum homem seria sistematicamente separado de suas emoções para servir a objetivos governamentais, doutrinado a acreditar que isso é “natural” por ser homem.
Se um indivíduo não se encaixa na norma, deveria haver flexibilidade em torno de sua circunstância única, e não uma expectativa de supressão para caber em uma caixa. As exceções a toda regra seriam reconhecidas.
Enquanto estivermos usando sexo, gênero e polaridade como bodes expiatórios, falharemos em reconhecer o problema real: a crueldade humana. As pessoas jogam jogos de soma zero, não priorizam o bem-estar umas das outras e toleram o sofrimento.
E isso se aplica a todos os ideais: a tentativa de usar ideais de *bgenderismo* ou ausência de gênero para exercer crueldade também é uma tática de evitação de traumas pessoais relacionados ao gênero.
Perguntas Frequentes
- O que é a polaridade sexual na perspectiva apresentada neste artigo?
A polaridade sexual refere-se à escolha de encarnar predominantemente como masculino ou feminino, sendo uma expressão única e intencional da alma, fundamental para o propósito de vida individual dentro da experiência dual. - Por que a crença no equilíbrio perfeito entre o masculino e o feminino é questionada?
É questionada porque ignora a profunda conexão entre o corpo físico (com sua polaridade sexual definida) e a energia, sugerindo que o corpo deve ser maleável de maneiras que a biologia humana não permite naturalmente. - Qual é a principal causa dos problemas interpessoais, segundo este ponto de vista?
O principal problema não são os papéis de gênero ou a polaridade, mas sim a crueldade humana e a tolerância ao sofrimento interpessoal. - Como o conceito oriental de Yin e Yang é aplicado de forma diferente no Ocidente?
No Ocidente moderno, o Yin e Yang são frequentemente interpretados como um ideal de equilíbrio interno a ser alcançado. Historicamente, tradições orientais viam a dominância de um sobre o outro no nascimento como um estado natural, não necessariamente um desequilíbrio a ser corrigido, mas um aspecto funcional da dualidade. - Qual a melhor forma de lidar com qualidades como a coragem?
A melhor forma é adotar uma abordagem baseada em “antídotos”, reconhecendo tanto os benefícios quanto os prejuízos de uma qualidade e trabalhando para expressar a forma benéfica, utilizando antídotos para neutralizar os efeitos sombra.






