Entendendo a Desconexão entre Alma e Corpo: Saindo do Congelamento Traumático
Muitas vezes, as pessoas se sentem desconectadas de seus corpos, apáticas e sem motivação, o que é comumente rotulado como preguiça ou procrastinação. No entanto, essa falta de alinhamento entre a missão da alma e o estado do corpo pode ter raízes muito mais profundas, frequentemente ligadas a traumas passados que desregulam o sistema nervoso.
Este artigo explora por que o corpo pode ficar “preso” e desalinhado com a alma, o que deve ser evitado nesse estado, e como é possível restaurar o funcionamento adequado do corpo em harmonia com o ser interior.
O Caso de Desconexão Corporal
Uma pessoa pode se sentir completamente entorpecida e desconectada de seu corpo, sem excitação pela vida ou clareza sobre o que fazer. Os dias se tornam monótonos e a pessoa se move roboticamente, sentindo-se “morta por dentro”.
Para quem observa de fora, essa pessoa pode parecer desmotivada, mas a força da alma ainda está presente. O problema reside na desconexão entre essa energia vital da alma e o corpo que não consegue manifestá-la.
A Influência do Trauma no Sistema Nervoso
A causa comum para esse desalinhamento é o trauma, especialmente aqueles vivenciados na infância, que afetam profundamente o sistema nervoso. O trauma pode levar ao desenvolvimento de padrões não saudáveis no sistema nervoso como mecanismo de resposta.
Tudo isso está intrinsecamente ligado ao nervo vago, o maior nervo do corpo humano, que inerva a maioria dos órgãos abdominais e torácicos.
O nervo vago é fundamentalmente responsável pelo sistema nervoso parassimpático, que nos permite descansar, relaxar, digerir e aprender. Ele também reforça a conexão social e o engajamento com os outros.
Contudo, o nervo vago não atua apenas no relaxamento; ele também é crucial em estratégias de sobrevivência em face de perigo ou ameaças avassaladoras. Ele é, na verdade, composto por duas partes principais:
1. **Vago Ventral:** Responsável pelo relaxamento, digestão e conexão social (descrito acima).
2. **Vago Dorsal:** Uma parte mais primitiva, envolvida em reações de trauma e sobrevivência.
As Respostas de Sobrevivência: Luta, Fuga e Congelamento
Quando o sistema nervoso detecta perigo, ele segue uma ordem específica de resposta:
1. **Engajamento Social (Vago Ventral Dominante):** É o estado natural de conexão e bem-estar, onde o vago ventral está ativo.
2. **Sistema Nervoso Simpático (Luta ou Fuga):** Se o perigo é detectado, o sistema simpático é acionado. O corpo decide rapidamente se pode lutar ou fugir da ameaça.
3. **Congelamento Funcional (Dorsal Vago Parcialmente Ativo):** Se o sistema decide que não é possível lutar ou fugir, e a ameaça parece inescapável, o corpo entra em um estado de congelamento funcional. O dorsal vago começa a atuar, mas o simpático ainda está ligado. A pessoa pode sentir-se agitada, com frequência cardíaca alta, mas com dificuldade de movimento.
4. **Congelamento Completo (Dorsal Vago Dominante):** Se a ameaça é percebida como totalmente avassaladora, o sistema entra em colapso total. O dorsal vago domina, paralisando o corpo, como a famosa resposta de “fingir de morto” vista em animais. O corpo congela ou fica mole, e a pessoa se sente impotente.
O Impacto do Trauma na Sequência de Resposta
Em crianças que vivenciam traumas, a sequência normal de resposta ao perigo pode ser alterada. Como uma criança não pode lutar ou fugir de um adulto ou de uma ameaça inescapável, o sistema nervoso aprende a não depender totalmente da resposta de luta/fuga. Em vez disso, ele pula diretamente para o congelamento ou congelamento funcional.
Como resultado, o adulto pode entrar nesses estados de congelamento (funcional ou completo) com muita frequência ao menor sinal de perigo percebido, como estresse no trabalho ou problemas de relacionamento.
Quando a pessoa está nesse estado de congelamento (dorsal vago ativado), ela se torna incapaz de receber orientação precisa da alma.
Imagine a alma como uma estação de rádio transmitindo energia e informação para o corpo, que funciona como o receptor. O sistema nervoso é a antena. Se o sistema nervoso está em *freeze*, a “antena” está danificada, e os impulsos da alma não são recebidos ou traduzidos corretamente.
Isso explica sintomas como a perda de motivação, alegria e clareza sobre o que fazer a seguir. A pessoa está simplesmente sem a energia necessária para agir.
O Erro de Tentar “Empurrar” Através da Vontade
Um erro comum, inclusive cometido ao iniciar a prática de auxílio a essas pessoas, é depender apenas da força de vontade e disciplina—componentes da inteligência conhecida como **QI (Quociente de Inteligência)**.
A inteligência humana se desdobra em quatro partes:
* **QI (Quociente de Inteligência):** A parte racional, de planejamento e pensamento abstrato. É o que geralmente é ensinado nas escolas.
* **EQ (Quociente Emocional):** A capacidade de sentir, rotular e processar emoções de forma saudável.
* **BQ (Quociente Corporal):** A habilidade de sintonizar e entender as mensagens sutis do corpo (fome, sede, necessidade de sono, estresse).
* **SQ (Quociente Espiritual):** A capacidade de receber mensagens dos guias e se conectar com o campo vasto de inteligência que transcende o físico. O espírito se comunica através do corpo, conectando SQ e BQ.
Usar apenas a força de vontade (QI) quando o corpo está em *freeze* é como operar com apenas 1/4 da sua capacidade total de inteligência. A força de vontade sozinha não vence a resposta do sistema nervoso.
O congelamento é uma resposta protetora. Tentar forçar o corpo a sair dele é lutar contra o próprio sistema de segurança, e o sistema nervoso sempre vencerá essa guerra. A força de vontade, divorciada da sabedoria incorporada (BQ e EQ), é insensata.
O Caminho para a Recuperação: Segurança Antes do Movimento
Para sair do *freeze* ou *functional freeze*, o corpo precisa, antes de tudo, detectar segurança. O movimento só virá depois que o sistema nervoso perceber que a ameaça passou.
A abordagem correta envolve dois pilares essenciais:
1. Honrar e Reconhecer a Resposta de Congelamento
O primeiro passo é parar a autocrítica e a rotulação de “preguiça” ou “procrastinação”. É crucial reconhecer e honrar o *freeze* como uma resposta protetora que está tentando manter a pessoa segura.
Reconhecer essa verdade com autocompaixão já permite que o sistema comece a se acalmar. Quando a pessoa se sente segura, o vago dorsal (que congela) se acalma, e o vago ventral (que conecta) é ativado. A conexão compassiva e o reconhecimento da verdade momentânea da pessoa disparam a ativação do vago ventral, permitindo que o corpo relaxe e comece a sair do estado de congelamento.
2. Movimentos Lentos e Abertos
Uma vez estabelecida a sensação de segurança, o movimento deve ser introduzido de maneira lenta e consciente. Evite estímulos abruptos ou movimentos rápidos, pois isso pode reativar o dorsal vago e levar ao *freeze* novamente.
Um exercício útil é o **”Olhar e Mover”**:
* Assuma uma posição de “estrela do mar” (deitado ou em pé, com braços e pernas abertos). Esta postura é inerentemente de segurança, pois expõe a área do tórax e abdômen, onde estão os órgãos vitais.
* Mova o corpo muito lentamente, mantendo o olhar fixo em uma parte do corpo, como uma das mãos.
* Continue o movimento devagar, seguindo a mão com os olhos, sem pressa.
* Após alguns minutos, respire profundamente e relaxe em meditação.
Esses movimentos lentos e conscientes ajudam o corpo a sair gradualmente da posição de congelamento, pois sinalizam segurança contínua ao sistema nervoso, permitindo que a energia retorne ao corpo para capacitar a vontade (QI) e realizar mudanças significativas na vida.
Perguntas Frequentes
- O que causa o congelamento funcional (functional freeze)?
É uma resposta de sobrevivência do sistema nervoso ativada quando o corpo percebe uma ameaça avassaladora da qual não pode lutar ou fugir, comum em pessoas com histórico de trauma. - Por que a força de vontade falha ao tentar sair do freeze?
Quando o sistema nervoso está em *freeze*, o dorsal vago reduz a energia disponível para o corpo, desativando a capacidade de exercer a vontade (QI). Segurança deve vir antes do movimento. - Qual a relação entre nervo vago e conexão social?
O vago ventral, uma parte do nervo vago, é o responsável por reforçar a conexão com outras pessoas, permitindo engajamento social e sentimento de pertencimento. - Como a inteligência corporal (BQ) se relaciona com o processo de cura?
O BQ é a capacidade de ouvir o corpo. Sem ele, mesmo com QI alto, a pessoa ignora os sinais de alerta do corpo sobre segurança ou necessidade de repouso, mantendo-se em desequilíbrio. - É possível que um esforço para “melhorar” o próprio estado se torne uma ameaça?
Sim. Se a abordagem utilizada (como a pressão constante para superar obstáculos) for interpretada pelo corpo como um fator de estresse contínuo, ela se torna uma ameaça, impedindo a saída do estado de *freeze*.






