Quando Tudo Parece Demais

Desvendando o Processo de Cura: Uma Jornada de Vulnerabilidade e Autenticidade

Geralmente, ao compartilhar ensinamentos, prefiro fazê-lo a partir de uma posição de sabedoria, após ter superado um desafio ou curado algo significativo. Acredita-se que o instrutor deve esperar adquirir essa sabedoria, estar do outro lado da provação, para então poder oferecer os passos claros para quem ainda está enfrentando a mesma dificuldade.

No entanto, este artigo é diferente. Decidi compartilhá-lo enquanto estou no meio de um profundo processo de cura e enfrentamento de um trauma. Faço isso intencionalmente para mostrar um lugar de vulnerabilidade e autenticidade, permitindo que você veja como a cura realmente acontece, sem filtros. Quero que você presencie os bastidores desse processo para que possa acessar esse espaço dentro de si, sem vergonha, culpa ou a sensação de estar falhando – algo comum na comunidade de cura, onde a comparação com mestres espirituais que parecem ter tudo resolvido pode gerar insegurança.

Este conteúdo tem o propósito de abrir as cortinas e mostrar a jornada enquanto ela acontece, antes de chegar ao destino final. Não sei qual será o desfecho, pois estou trabalhando ativamente com a ferida no presente, e quero compartilhar como essa energia se manifesta no meio do caminho.

A Revelação dos Dados Biométricos

Há algumas semanas, adquiri um dispositivo vestível chamado Whoop, um rastreador biométrico que funciona de forma semelhante a anéis inteligentes ou Apple Watches, mas com maior detalhe nas métricas corporais. Adquiri-o para monitorar como meu corpo estava se saindo, avaliando meu sono, recuperação de exercícios e níveis de estresse, dados que o Whoop mede com precisão.

Após instalá-lo no pulso – onde permanece 24 horas –, os primeiros sete dias foram dedicados à calibração, sem coleta de dados significativos. No sétimo dia, algo surpreendente aconteceu ao analisar a Variabilidade da Frequência Cardíaca (VFC).

A VFC é a medição do tempo entre os batimentos cardíacos e é um indicador vital do estado do seu sistema nervoso. Quanto melhor a VFC, mais seu sistema nervoso está em homeostase, especialmente no equilíbrio entre os sistemas parassimpático (repouso e relaxamento) e simpático (luta ou fuga). A VFC revela a flexibilidade geral do sistema nervoso.

Ao visualizar meus dados de VFC nos primeiros dias, fiquei devastado. Minha VFC estava péssima, na faixa de 11 a 14, sendo que o habitual para adultos saudáveis é em torno da metade dos 40.

Essa descoberta abriu a Caixa de Pandora. Um gatilho aparentemente pequeno – olhar para aquele número consistentemente baixo todos os dias – me levou a uma profunda realização. Uma tristeza imensa veio à tona. Se me perguntassem como eu estava me sentindo, eu diria que estava calma e em paz na maioria dos dias. No entanto, minhas métricas biométricas mostravam o contrário. Minha percepção de como meu corpo estava era completamente imprecisa.

Essa desconexão com o estado real do meu corpo foi, de fato, um choque de realidade. Também despertou uma tristeza profunda, reabrindo a porta para traumas de infância significativos que venho curando ao longo dos anos. Cheguei à conclusão de que o nível de trauma em meu corpo era muito mais profundo do que eu compreendia conscientemente.

As Raízes do Trauma e a Desregulação do Sistema Nervoso

Quando o gatilho da baixa VFC ocorreu, muitas memórias vieram à tona. Aquele simples olhar para a métrica abriu uma porta para meu subconsciente, trazendo à luz memórias relacionadas à desregulação completa do meu sistema nervoso.

Isso me levou de volta à infância. Percebi que meu sistema nervoso se desenvolveu a partir de um estado constante de pânico e insegurança. Meu pai foi diagnosticado com diabetes tipo 1 quando eu era criança, e, por razões que ainda não compreendo totalmente, ele não se cuidou adequadamente. Na ausência de cuidado para o diabetes tipo 1, isso pode ser fatal.

Meu pai frequentemente sofria ataques severos de hipoglicemia, nos quais ele “perdia a cabeça”, ficando completamente alterado. Minha casa era um estado de pânico constante. Minha mãe também entrava em pânico ao tentar desesperadamente dar água com açúcar a ele, pois é perigoso para um diabético entrar em hipoglicemia. Ela corria gritando para que ele parasse e bebesse o líquido, enquanto ele fugia.

Como criança, observei todo esse caos e desenvolvi um mecanismo de enfrentamento que, na época, parecia um superpoder, mas que, na verdade, era devastador para mim. Eu conseguia me apresentar como calma, mesmo estando em pânico por dentro. Aprendi a ir até meu pai com a água com açúcar, mantendo a calma, sabendo que ele não lidava bem com a energia ansiosa da minha mãe. Ao beber a água, o ataque hipoglicêmico cessava.

Eu era uma criança em pânico, mas agia com serenidade. Nunca entendi a profundidade do trauma que isso causou. Parecia um evento não tão sério na época, mas, ao longo dos anos de cura, percebi o quão devastador foi para uma criança ter que se manter externamente calma enquanto estava em pânico interno.

Além do pânico doméstico relacionado à doença do meu pai, eu também estava sendo sexualmente abusada por um familiar. Naquele período, eu não contei aos meus pais porque o lar já era um caos. Não havia segurança, e toda a atenção estava voltada para a doença dele, de modo que eu não sentia que essa notícia seria bem recebida.

Todas essas experiências contribuíram para o desenvolvimento de um sistema nervoso completamente desregulado, um corpo no qual eu não sabia como habitar ou mesmo perceber o que estava acontecendo internamente. Eu estava extremamente desconectada.

Meu sistema nervoso desenvolveu, como estado padrão, a dominância do sistema nervoso simpático – luta ou fuga. A ansiedade era meu estado normal. Como só se conhece o que se conhece, eu vivi acreditando que aquele era o estado normal, pois meu sistema nervoso nunca experimentou a calma, a paz ou a segurança como padrão na infância. Passei a vida inteira em dominância de luta ou fuga sem sequer me dar conta. Por isso eu dizia estar calma e pacífica, enquanto meu sistema nervoso não estava nessa condição.

Conexão entre Biometria, Trauma e Sabedoria

Ao olhar para meus dados do Whoop, vi a confirmação de tudo isso. As memórias da minha infância e o desenvolvimento do meu sistema nervoso voltaram à tona. Lembrei-me também da minha tendência a intervir para salvar meu pai e evitar uma catástrofe, talvez até a morte.

Como criança, eu sentia intuitivamente que meu pai morreria cedo. Ele tinha uma “energia de morte” em sua aura; quando foi diagnosticado, parecia que ele não queria mais viver e lentamente se deixou ir. A família sofreu imensamente, e eu, a filha mais nova com a capacidade de lidar com ele durante as crises de hipoglicemia, me tornei sua cuidadora em inúmeras ocasiões, tentando evitar que ele entrasse em coma e falecesse. Estávamos sempre à beira de uma catástrofe de risco de vida.

Diante dessas memórias emergindo, fiz o que costumo fazer em ciclos de cura: peguei meu caderno (neste caso, um “Remarkable”, mas qualquer caderno serve) e comecei a anotar as percepções e sentimentos que vinham à tona para processá-los.

Escrevi a seguinte anotação: “Estou convencida de que meu pai sobreviveu até os 50 anos porque salvei sua vida em várias ocasiões, mas as consequências de tentar desesperadamente mantê-lo vivo foram devastadoras e dolorosas para meu corpo e meu coração sensível.”

Entendendo a Desconexão com o Corpo

Refleti muito sobre como as pessoas carregam traumas significativos que moldam quem nos tornamos adultos. O que se diz sobre o trauma carregado internamente por todos nós faz muito sentido. Sinto uma tristeza e devastação imensas ao sentir a menina que eu era ainda dentro de mim. Como criança, eu não conseguia dormir. Todos esses eventos ressurgem agora para serem curados em um nível diferente. São coisas que curei ao longo dos anos, mas a cura ocorre em camadas sucessivas.

Atualmente, estou lidando com muita tristeza pela criança que fui e pela minha desconexão corporal. Eu não sei se já estive verdadeiramente em meu corpo ou se já estive genuinamente em paz. Questiono isso por causa da desregulação do meu sistema nervoso, mesmo quando acredito estar em paz. Isso aponta para uma profunda desconexão.

Tenho trabalhado com essa energia infantil e esse trauma, escrevendo bastante e chegando a muitas realizações que estou sentada para processar. Penso nos milhões de pessoas ao redor do mundo que também estão em processos de cura, enfrentando aquilo que as traumatizou, em vez de reprimir ou ignorar. O trauma acompanha você.

A Revelação dos Mensageiros Psíquicos

Nos últimos anos, procurei médiuns e videntes para obter uma perspectiva externa sobre minha energia, o que sempre foi útil. Invariavelmente, todos eles me diziam que eu precisava me abrir mais, que estava “fechada”, bloqueando amor e abundância. Um deles chegou a dizer que meu chakra cardíaco estava fechado, do tamanho de uma ervilha.

Ficava frustrada com essas sessões, pois não sabia o que fazer para me abrir. Eu ansiava por conexão, por dar e receber amor. A frustração vinha do fato de eu não saber como mudar aquilo que parecia um bloqueio inconsciente.

Mas agora, tudo faz sentido. Se seu sistema nervoso está em dominância simpática (luta ou fuga), você não conseguirá se abrir. Abrir-se é uma função do sistema parassimpático (descanso, relaxamento e conexão). Se você está fugindo de um perigo, seu corpo não permite que você se abra; ele exige que você se feche para sobreviver. Portanto, o que os videntes diziam era verdade, mas faltava o *porquê* de eu não conseguir abrir minha energia: eu estava presa na dominância simpática.

Estratégias Práticas Durante a Cura

Enquanto passo por este ciclo de cura, estou aplicando algumas estratégias básicas:

1. Voltando ao Básico: Ouvir o Corpo

Devido à profundidade da minha desconexão corporal, forjada na infância, estou voltando ao básico: ouvir meu corpo, e não minha mente.

* **Sentir as Sensações:** Perguntar-me o que estou sentindo fisicamente: Estou com sede? Com fome? Com frio ou calor? É fundamental sentir essas sensações básicas.
* **Decisões Corporais:** Outro exemplo foi quando fui me exercitar com um colete de peso. Minha disciplina mental me levou a sair, mas parei na porta, respirei fundo e perguntei ao meu corpo se ele queria se exercitar. A resposta foi não, senti que não estava bem. Tirei o colete, meditei e honrei a necessidade corporal.
* **Suplementação Consciente:** Questiono se estou tomando suplementos porque minha mente me diz para tomar ou porque meu corpo precisa. Passo a olhar o armário e pergunto: “Quais suplementos você precisa hoje?”, alcançando intuitivamente o que sinto ser necessário.

Essas práticas básicas ajudam a reconstruir a comunicação e a sentir como é quando meu corpo decide por mim. Para quem sofre de trauma e dissociação, é crucial aprender a ouvir o corpo, pois a probabilidade de dissociação após um evento traumático é alta, o que bloqueia a comunicação corporal.

2. Escrita Medicinal

Escrevo muito durante a cura. A escrita é crucial porque não é apenas reviver o trauma; é registrar realizações e contemplações.

* **Processamento Profundo:** Ao escrever sobre um sentimento que gera muita emoção, continuo escrevendo até chegar ao fundo daquela sensação.
* **Leitura em Voz Alta:** Pontos extras são ganhos ao ler o que foi escrito em voz alta para si mesmo. Ouvir a própria história ou realização sendo verbalizada ajuda a internalizar a verdade e sentir no corpo como aquela informação ressoa.

3. Ativação do Nervo Vago

Estou me apoiando fortemente em exercícios para o nervo vago, o nervo mais longo do corpo e o principal regulador do sistema nervoso parassimpático (repouso e relaxamento). Quanto mais exercícios faço para ele, mais meu sistema parassimpático é ativado, e o simpático (luta ou fuga) é desativado.

Práticas que utilizei:
* Respiração profunda e lenta.
* Canto ou zumbido (*humming*), pois vibram nas cordas vocais, que são inervadas pelo nervo vago.
* Uso de pressão profunda, que também ajuda a ativar o parassimpático.
* Meditação e *body scan* (escaneamento corporal), perguntando ao corpo como ele se sente.

Essas ações fortalecem o sistema parassimpático, me tirando da dominância constante de luta ou fuga e ajudando-me a sentir um vislumbre de calma.

4. Hacks de Sono

A desregulação do sistema nervoso é muito sensível ao sono. Tenho me surpreendido ao descobrir que durmo pior do que imaginava, pois acordo várias vezes durante a noite sem perceber, algo que o Whoop detecta constantemente ao monitorar o sono profundo, REM e leve.

Para melhorar a qualidade do sono:
* Estou escurecendo completamente meu quarto, fechando cortinas, apesar de valorizar a luz natural do nascer do sol.
* Uso protetores auriculares e máscara para os olhos, pois sou sensível a ruídos.

Melhorar a qualidade do sono ajuda meu sistema nervoso a se autorregular.

5. Vibração Sonora

Algo que tem sido muito útil é a vibração sonora. Tenho um grande Tibetano Bowl (tigela tibetana) que coloco sobre meu estômago (área do intestino) e o toco. A vibração do som não penetra bloqueios energéticos; ela não atravessa as células se houver resistência.

Notei que ao colocar a tigela na região abdominal, que é intensamente inervada pelo nervo vago, a área estava dormente, indicando um bloqueio de energia no que é chamado de *lower dantien* (centro de energia inferior). Ao trazer a vibração sonora para essa área, estou desafiando as “raízes” do nervo vago a crescerem mais profundamente, até o primeiro chakra (raiz do sistema), que é responsável por nos sentirmos seguros e conectados à Terra.

Conclusão do Processo Atual

Ainda estou no meio deste ciclo de cura, não cheguei ao outro lado, mas quis oferecer um vislumbre de como é a energia durante uma fase intensa de cura. O objetivo é que você veja e não tema entrar em seus próprios ciclos, que não se sinta envergonhado ou inseguro para ser vulnerável. Atingir esse estado interno é crucial.

Perguntas Frequentes

  • O que é a Variabilidade da Frequência Cardíaca (VFC)?
    A VFC mede o tempo entre os batimentos cardíacos e é um indicador chave da saúde e flexibilidade do sistema nervoso, refletindo o equilíbrio entre os estados de “luta ou fuga” e “repouso e digestão”.
  • Por que a dominância simpática impede a abertura energética?
    O sistema simpático (luta ou fuga) prepara o corpo para a sobrevivência imediata, fechando a energia para focar na ameaça, enquanto a abertura e conexão são funções do sistema parassimpático (repouso e relaxamento).
  • Como os exercícios do nervo vago ajudam na cura do trauma?
    O nervo vago é o mestre do sistema parassimpático. Ao estimulá-lo com respiração lenta, canto ou pressão, ativamos o estado de relaxamento, opondo-se ao estado de alerta constante causado pelo trauma.
  • Qual a importância de escrever durante um processo de cura?
    A escrita ajuda a registrar realizações, contemplações e aprofundar a compreensão do que está sendo vivenciado, permitindo processar as emoções até o fundo.
  • É normal não saber como se sentir em paz quando se tem histórico de trauma?
    Sim, é comum. Pessoas com trauma podem ter um sistema nervoso desregulado como estado padrão, o que significa que a percepção de calma pode estar desconectada da realidade fisiológica do corpo.