O Mecanismo de Enfrentamento Que Impede a Mudança Mundial

Coping: Adaptando-se ao Estressor ao se Tornar Semelhante a Ele

Quando lidamos com uma situação difícil, engajamos em um processo, procedimento ou técnica que nos auxilia a nos adaptar a um estressor. A palavra-chave aqui é adaptar, pois ao nos adaptarmos, mudamos a nós mesmos para sermos capazes de conviver com algo da forma que ele se apresenta.

É importante notar a diferença entre adaptação e mecanismo de *coping* (enfrentamento). Nossos mecanismos de *coping* são o que mantêm as coisas como estão; eles nos impedem de fazer mudanças no que está acontecendo. Isso se aplica tanto ao microcosmo das nossas vidas individuais quanto ao macrocosmo da sociedade humana e do mundo que estamos cocriando.

O mecanismo de *coping* mais extremo, que impede a mudança tanto no micro quanto no macrocosmo, é quando lidamos com o estressor nos tornando iguais a ele. Em outras palavras, nos tornamos aquilo que nos feriu.

Para ilustrar isso melhor, consideremos três exemplos que demonstram como nos tornamos a mesma coisa que o estressor que enfrentamos.

Exemplo 1: Sophie e o Controle

Sophie tinha pais que usavam tudo o que faziam por ela e pelo irmão como alavanca para controlar os filhos. Tudo vinha com “cordas amarradas”. Por exemplo, para fazer Sophie obedecer, os pais a pressionavam lembrando que a alimentavam, pagavam pelo teto sobre sua cabeça e até mesmo pelas aulas de dança dela.

Essa manipulação e controle eram um estressor constante. Sophie se adaptou a isso, tornando-se exatamente como os pais, embora sem perceber. Temendo ser controlada, ela desenvolveu a necessidade de sempre ter a vantagem nos relacionamentos.

Na prática, isso significava fazer coisas por eles (como pagar refeições ou ajudá-los quando precisavam) para garantir que eles ficassem em dívida com ela, e não o contrário. Ela passou a sentir que relacionamentos eram um convite para ser explorada. Consequentemente, tornou-se muito vigilante e reservada em demonstrar amor quando sentia que estava sendo explorada ou quando precisava de algo de alguém.

Se ela sentia que precisava de algo, ou se sentia explorada, ela retribuía na mesma moeda, segurando o que havia feito por eles sobre suas cabeças. Ela não admitia suas condições para fazer favores aos outros, muito menos para os outros. O resultado era que muitas pessoas ao redor de Sophie sentiam que não era seguro receber algo dela, pois isso sempre voltaria para mordê-las no final.

Exemplo 2: Richard e a Busca por Poder

Aos cinco anos, Richard teve que morar com os avós porque seus pais estavam passando por dificuldades. O problema era que seu avô era ditatorial e abusivo. Richard era frequentemente humilhado e, ao irritar o avô, sofria espancamentos severos.

Richard sentia que não podia mudar essa situação estressante, então ele se adaptou ao estressor. Decidiu muito cedo que qualquer fraqueza o colocaria em apuros e que era perigoso para qualquer pessoa ter mais poder do que ele.

Esse poder era exercido através de intimidação aberta. Como resultado, Richard decidiu se tornar o mais inflexível e invulnerável possível. Ele se mantinha seguro no mundo intimidando e maltratando outras pessoas, tornando-se obcecado em ter poder sobre elas, buscando status, dinheiro, proezas físicas e traços de caráter fortes. Tornou-se abusivo e degradava outras pessoas consistentemente, chegando a bater na esposa.

Exemplo 3: A Sociedade Insensível

Em uma perspectiva macrocósmica, a humanidade provou, por milhares de anos, ser ineficaz em cuidar dos interesses uns dos outros. A sociedade não é um lugar seguro e amoroso para as pessoas. Por causa disso, a sensibilidade é vista como uma responsabilidade, uma fraqueza quase patética que garante que o mundo “te devore”.

Muitas pessoas se adaptam a esse estressor tornando-se mais duras e garantindo que seus filhos também se tornem duros. Adotamos personas protetoras que são boas em preservar nossos próprios interesses, apesar das outras pessoas. Ao nos tornarmos insensíveis, duros e guardados, e ao adotarmos essas personas protetoras, não estamos agindo de forma segura ou amorosa conosco mesmos. Garantimos que a sociedade continue sendo um lugar insalubre e inseguro.

Nós lidamos com a crueldade nos tornando cruéis. Lidamos com o controle nos tornando controladores. Lidamos com o abandono nos tornando aqueles que abandonam. Lidamos com a manipulação nos tornando manipuladores. Lidamos com a fraqueza nos tornando fracos. Lidamos com ideologias adotando essas mesmas ideologias e vivendo nossas vidas de acordo com elas.

Reconhecendo o Padrão de Adaptação

Inevitavelmente, ao embarcar no caminho do despertar, tomamos consciência das muitas maneiras pelas quais nos tornamos a própria coisa que nos feriu, adaptando-nos a situações que precisavam de mudança e, como resultado, garantindo que essas situações nunca mudassem.

As formas como você lida com algo ao se tornar igual ao agressor serão reveladas a você neste caminho de autodesenvolvimento.

Um método para acelerar esse processo é criar uma lista das experiências dolorosas, assustadoras ou estressantes que você vivenciou. Estas podem ser experiências que você julga como muito grandes ou muito pequenas.

Para cada experiência listada, crie uma segunda lista detalhando:

  • O que você fez cada experiência significar.
  • Quais crenças você desenvolveu como resultado.
  • Quais decisões você tomou após a experiência.

Em seguida, para cada resposta da segunda lista, crie uma terceira lista detalhando o que mudou em você e em sua vida como resultado da experiência e o efeito psicológico e emocional que ela teve.

  • Sua personalidade mudou de alguma forma?
  • Seu comportamento mudou?
  • Você mudou o que fazia diariamente?
  • Você adotou mecanismos de *coping*?

Ao analisar essas listas, você poderá reconhecer os modos pelos quais você se tornou igual ao que o feriu quando decidiu lidar com aquela experiência dolorosa. Verá as maneiras pelas quais se adaptou de um jeito que o condenou a uma profecia autorrealizável, onde suas ações trouxeram exatamente aquilo que você queria evitar.

Para exemplificar como isso funciona, vejamos um relato submetido:

Coluna 1: O Evento
Perdi meu irmão aos 12 anos e o encontrei morto. Ninguém falou sobre ele depois que ele morreu.

Coluna 2: O Efeito Emocional/Psicológico (O Significado e as Decisões)
Não há lugar para emoções neste mundo; o mundo é perigoso. Tornei a segurança a coisa mais importante. Você será esquecido quando morrer. As pessoas precisam estar perto de mim, mas se eu me apegar a elas, me machucarei.

Coluna 3: O Resultado (Como você se tornou o problema)
Eu me tornei emocionalmente frio e distante. Mantive-me preso a tudo que eu sabia na vida, impedindo meu crescimento. Tornei-me apático em relação a experimentar a vida devido aos riscos. Eu não falava sobre ninguém após sua morte, pois era minha forma de evitar emoções. Apoiei a ideia de que, quando as pessoas fazem algo ruim, elas merecem o que recebem, mesmo que seja a morte. Para finalizar, eu vivi acreditando que poderia julgar quem merecia viver e morrer, assim como o homem que tirou a vida do meu irmão.

Se queremos que os elementos de nossa vida mudem, precisamos reconhecer as maneiras pelas quais estamos impedindo essa mudança, lidando com o problema ao nos tornarmos parte do problema. Se quisermos mudar o mundo, precisamos reconhecer as maneiras pelas quais estamos impedindo essa mudança, lidando com o mundo ao nos tornarmos parte dele, em vez de nos tornarmos o antídoto.

Fazer isso exige uma coragem incrível, afinal, lidamos com essas situações porque pensávamos que agir assim nos manteria seguros. Largar esses mecanismos de *coping* nos forçará não apenas a enfrentar nossa dor e nosso medo, mas a escolher mergulhar neles. Ao mergulharmos neles, podemos mudar o mundo.

Perguntas Frequentes

  • O que é um mecanismo de coping?
    É um procedimento, processo ou técnica que usamos para evitar fazer mudanças em uma situação estressante, mantendo as coisas como estão.
  • Qual é a forma mais extrema de coping?
    A forma mais extrema é quando nos tornamos idênticos ao estressor que estamos enfrentando, ou seja, nos tornamos aquilo que nos feriu.
  • Como a experiência da infância de Sophie a afetou?
    Devido à manipulação parental, Sophie se tornou controladora nos relacionamentos, fazendo favores para garantir que os outros ficassem em dívida com ela.
  • Como Richard lidou com a situação de abuso de seu avô?
    Richard se tornou inflexível e invulnerável, focando em adquirir poder através de intimidação, temendo a fraqueza.
  • Por que a sensibilidade é vista como fraqueza na sociedade macrocósmica?
    A sociedade é percebida como um lugar inseguro, e a sensibilidade é vista como uma vulnerabilidade que pode levar à exploração.
  • Qual é o passo prático sugerido para identificar como nos tornamos o problema?
    É sugerido criar três listas detalhando o evento estressante, o significado que ele ganhou e como mudamos nosso comportamento (coping) em resposta.