Nem Todos os Gatilhos São Iguais: 3 Níveis Que Todos Ignoram

Entendendo os Gatilhos: Dos Níveis Superficiais à Paralisia da Alma

Lembro-me vividamente de um momento em que acordei e percebi que não conseguia me mover. Não era uma paralisia emocional, mas sim física. Meu corpo inteiro parecia uma pesada rocha. Por meses, tentei viver normalmente, mas me sentia paralisado.

Meses antes desse episódio, eu havia sido diagnosticado com uma infecção severa pelo vírus Epstein-Barr, que devastou meu corpo. Nunca me senti tão doente e miserável. Meus gânglios linfáticos no pescoço e axilas estavam inchados; minha glândula do timo e meu peito doíam; minha tireoide estava inflamada e meu baço inchado e dolorido. Todos os meus órgãos imunológicos estavam sofrendo. Levei muitos meses de tratamento e descanso para começar a me sentir minimamente normal e sem sintomas novamente.

No entanto, assim que meus sintomas físicos estavam se curando, fui atingido por uma profunda paralisia que vinha dos ossos. Eu ficava deitado na cama ou no sofá por horas, incapaz de me mover, incapaz de pensar, incapaz de agir. Lembro-me de pensar na época: “Nunca me senti assim na minha vida”.

Mas isso não era inteiramente verdade. A verdade que eu não conseguia acessar naquele momento era que eu já havia me sentido assim antes, quando era uma criança pequena vivenciando um trauma impensável. Eu não sabia na época que essa paralisia não era aleatória; era um gatilho profundo.

Uma das razões pelas quais eu não percebia que aquilo era um gatilho era porque não se parecia com o gatilho emocional usual. Não era irritação, reatividade emocional ou sequer sobrecarga emocional. Era algo muito mais profundo do que a maneira como geralmente definimos gatilhos.

É por isso que exploro neste artigo a verdade espiritual e somática por trás do que um gatilho realmente é, os três níveis de gatilhos — do nível superficial aos gatilhos profundos no nível da alma que podem paralisar sua vida — e como curar cada nível para que você possa seguir em frente novamente.

A maioria das pessoas só sabe como lidar com gatilhos superficiais. Se você não entende os mais profundos, como os que experimentei, sua vida pode parecer permanentemente suspensa. A verdade empoderadora é que, ao entender esses níveis mais profundos, você para de ser controlado pelos seus gatilhos e começa a transformá-los.

O que é um Gatilho? Definições Psicológicas

Vamos começar com algumas definições mais convencionais de gatilhos na psicologia. Gatilhos são eventos ou circunstâncias externas que podem produzir sintomas emocionais ou psiquiátricos muito desconfortáveis, como ansiedade, pânico, desespero ou autocrítica negativa. Um gatilho emocional é qualquer tópico que nos deixa desconfortáveis. Esses gatilhos emocionais nos indicam em qual aspecto de nossa vida podemos nos sentir frustrados ou insatisfeitos.

Nestes conceitos, já podemos identificar algumas características comuns do que é um gatilho: é qualquer coisa que pode causar uma reação emocional rápida e intensa em você.

A Perspectiva da Psicologia Corporal e Traumática

Ao aprofundar e considerar a psicologia mais incorporada e fundamentada, como o trabalho do especialista em trauma e autor de sucesso, Dr. Peter Levine (autor de “Waking the Tiger”), ele enxerga os gatilhos de uma maneira realmente interessante.

Ele afirma que o trauma é uma resposta de sobrevivência incompleta — seja luta, fuga ou congelamento (freeze). Um gatilho, portanto, é a reativação dessa resposta de sobrevivência incompleta.

O Ciclo de Sobrevivência

O ciclo de sobrevivência funciona assim em animais selvagens:

1. Estado Calmo: O animal está em repouso.
2. Estresse: Ocorre algum tipo de estresse (ex: um predador começa a perseguição).
3. Resposta Defensiva: O animal reage — ele vai lutar, fugir ou paralisar (freeze).
4. Descarga de Energia: Se sobrevive, o perigo passa, e o animal realiza uma descarga de energia. Isso geralmente acontece quando o animal treme, lambe-se ou “caminha” lentamente para liberar a energia residual.
5. Retorno à Calma: Após a descarga, o animal retorna ao seu estado de calma.

Em humanos, no entanto, o ciclo é frequentemente interrompido. Começa da mesma forma (calma -> estresse -> resposta de luta/fuga/congelamento), mas o ciclo fica preso na resposta porque não há descarga de energia.

Quando isso acontece, o que o Dr. Levine chama de “ciclo incompleto” ocorre. A energia não é processada e fica reprimida no corpo. O loop nunca se fecha, e a pessoa permanece em um estado de resposta ao estresse, em vez de retornar à calma.

Quando você experimenta um trauma, seu corpo armazena uma enorme quantidade de energia não processada. O gatilho reativa essa energia na tentativa de completar o ciclo. Por isso, sou adepto de dizer aos meus clientes: gatilhos são seus melhores amigos, pois eles trazem à tona feridas profundas que ainda precisam ser curadas.

Espiritualmente, um gatilho significa que a energia da ferida original foi reativada e está sendo transmitida por todo o seu corpo. Isso pode ser avassalador. Imagine uma superfície de água calma; quando você joga uma pedra, as ondulações se espalham em todas as direções. É assim que vejo um gatilho: ele ativa um trauma ou ferida central, e essa ferida irradia sua energia para fora, por todo o corpo.

Eu costumava ver o gatilho como um mecanismo de proteção que nos afastava da ferida original, porque, muitas vezes, é assim que parece. Quando você é acionado, pode ficar tão emocionalmente ativado que é difícil pensar ou agir de maneira que cure a ferida.

Muitas vezes, ficamos tão presos na energia não processada que percorre nossos corpos que não conseguimos permanecer presentes o suficiente para nos engajar com a ferida original, quanto mais curá-la. É por isso que a maioria das pessoas, quando acionada, aponta o dedo para a situação externa ou culpa os outros por tê-las acionado. Elas se sentem sobrecarregadas e reagem externamente, sem parar para reconhecer que o gatilho é uma reativação de um trauma passado não curado.

Com o tempo e treinamento, minha compreensão dos gatilhos mudou. Eu os vejo mais como uma porta que se abre e o leva de volta ao momento em que a ferida foi criada. Um gatilho nos leva a uma parte de nós que está em desesperada necessidade de amor e cura.

Os Três Níveis de Gatilhos

O que a maioria dos especialistas ignora é que um gatilho não é uma coisa única. Existem níveis ou profundidades para os gatilhos, e cada nível exige uma resposta diferente. É por isso que as pessoas frequentemente perdem a oportunidade de curar feridas profundas, liberar a energia e completar o ciclo do trauma, pois tentam lidar com eles de uma única maneira.

O nível do gatilho é determinado pela seguinte equação:

Nível do Gatilho = (Severidade da Ferida Original) x (Percepção de Similaridade da Situação Atual com a Ferida Original)

A chave aqui é a percepção. A situação que está te acionando pode ser totalmente diferente da ferida original, mas se o seu sistema nervoso a percebe como semelhante, o nível do gatilho será alto.

Nível 1: Ativação (Gatilho Leve)

Este é o gatilho mais leve. Nesta situação, o gatilho é suficientemente leve para que você consiga permanecer presente com ele. Você não se sente emocionalmente sobrecarregado ou completamente consumido. É o mais fácil de lidar, e você raramente perde seu senso de presença. Pode haver um leve incômodo ou um estremecimento, mas você não perde o controle.

Geralmente, isso acontece quando alguém diz algo ligeiramente ofensivo ou estranho, e você sente o gatilho começando, mas consegue permanecer presente e trabalhar através disso.

Como resolver:

1. Pause e respire fundo: Reconheça a emoção.
2. Engaje com curiosidade, não julgamento: Pergunte: “Sobre o que era este gatilho?” Tente descobrir qual é a ferida original, trabalhando do gatilho para trás (ex: se o gatilho foi um comentário sobre o corpo, a ferida pode ser crítica familiar sobre a aparência na infância).
3. Descarregue energia: Use o tremor corporal ou bata os pés no chão por um minuto para ensinar ao corpo a fechar o ciclo de sobrevivência.

Nível 2: Ativação Profunda (Sobrecarga Emocional)

Este é um gatilho mais profundo. Você pode sentir uma atração emocional enorme, quase ao ponto de se sentir sobrecarregado. Você pode perder seu senso de presença. É o tipo de gatilho onde as pessoas reagem violentamente à fonte do gatilho, tornando-se muito reativas emocionalmente. É muito difícil se autorregular, podendo levar de minutos a horas.

Muitas vezes, é neste nível que as pessoas dizem coisas que lamentam horas depois, por estarem em um estado de sobrecarga emocional.

Como resolver:

1. Pause e respire fundo: Ao respirar, aumente o espaço na sua cavidade torácica (expandindo seu “container” espiritual) para que as emoções não pareçam tão avassaladoras.
2. Ancore-se no corpo imediatamente: Coloque a mão no coração para se conectar através do toque.
3. Dê um passo atrás: Se o gatilho for uma interação com outra pessoa, peça alguns minutos para se regular e prometa retornar à conversa. A co-regulação com alguém calmo também ajuda, mas a auto-regulação é fundamental.
4. Reflexão: Uma vez regulado, escreva: Qual é o sentimento? Quais são as emoções? Por que isso me acionou? Qual é a ferida mais profunda que este gatilho estava me mostrando?
5. Descarga de energia: Tremor ou bater os pés, da mesma forma que no Nível 1.
6. Feche o ciclo: Use uma oração ou afirmação curativa, como: “Eu estou seguro(a) e pronto(a) para curar esta ferida em todas as direções do tempo.”

Nível 3: Ativação Central (Congelamento Profundo)

Este é o gatilho mais difícil de trabalhar, e é o que eu descrevi no início. A característica mais notável é que você pode nem saber que está acionado. Ele não tem a carga emocional intensa dos outros níveis. O corpo entra em uma resposta de congelamento (freeze) e você se dissocia completamente de quaisquer sentimentos.

Isso é comum em pessoas com trauma infantil, pois crianças não têm a opção de lutar ou fugir de seus cuidadores. O congelamento é o mecanismo de proteção mais comum.

Como resolver:

1. Curiosidade e Auto-Checagem: Comece sempre com curiosidade. Verifique-se sempre que se sentir “estranho”, desconectado, fora do corpo, entorpecido ou deprimido. Foi assim que percebi meu próprio Nível 3: fechei os olhos e me perguntei o que estava sentindo, percebendo que estava em “freeze”.
2. Crie Segurança: Não se pode sair do congelamento a menos que se sinta seguro. Co-regule com alguém de confiança ou use hacks de micro-regulação, como orientar-se pelos objetos ao redor lentamente. Respire para se ancorar no corpo, ou use toque físico (como apertar lentamente os braços e pernas) para sinalizar segurança.
3. Movimentação Lenta (Thawing): Mova o corpo muito devagar, começando com pequenos movimentos (como mover a mão ou os quadris). Movimentos rápidos podem manter você preso no congelamento. Pense em descongelar lentamente de um freezer.
4. Afirmações de Apoio: Enquanto se move lentamente, use afirmações como: “Eu estou seguro(a) para curar. Meu corpo está seguro para despertar.”
5. Aprofundamento: Assim que sentir seu corpo começando a sair do congelamento (você começará a sentir algo), é hora de aprofundar. Você não precisa “pescar” a ferida original, pois o nível 3 já está sinalizando a enorme similaridade entre o gatilho e o trauma central. Pergunte: “O que ainda precisa ser curado nesta ferida? O que não estou vendo sobre esta ferida?”
6. Fechamento do Ciclo com Cerimônia: Este nível leva mais tempo para se resolver (dias, semanas ou meses, pois o sistema emocional está desligado). Use uma cerimônia sagrada — acenda velas, comece a tocar tambor e peça assistência espiritual para curar a ferida central completamente.

É fundamental ser compassivo consigo mesmo e com seu corpo enquanto ele sai lentamente deste gatilho profundo.

Perguntas Frequentes

  • Como a severidade do trauma original afeta o nível do gatilho?
    Quanto mais severa for a ferida original (o trauma central), maior será o potencial para o nível do gatilho subsequente, especialmente se o sistema nervoso perceber similaridade na situação atual.
  • O que é a “descarga de energia” e por que é crucial?
    É o processo pelo qual o corpo libera a energia residual acumulada durante uma resposta de luta, fuga ou congelamento. É essencial para fechar o ciclo de sobrevivência incompleto e retornar ao estado de calma.
  • É possível sair do Nível 3 (Core Activation) sem perceber que se está acionado?
    Sim. No Nível 3, o corpo entra em uma resposta de congelamento/dissociação, o que pode desconectar a pessoa de suas emoções, impedindo-a de notar a ativação inicial.
  • Qual a melhor forma de lidar com a sobrecarga emocional (Nível 2)?
    A melhor abordagem envolve expandir o “container” interno através da respiração profunda e ancorar-se no corpo através do toque físico, como colocar a mão no coração, antes de tentar processar a situação.
  • Por que movimentos lentos são recomendados no Nível 3?
    Movimentos lentos e conscientes imitam a forma natural como os animais saem do congelamento após o perigo passar (o “descongelamento”). Movimentos rápidos podem, paradoxalmente, manter o corpo preso no estado de freeze.

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