A Chave para Entender as Emoções: A Prática de Fisicalizar o Sentimento
Vivemos em uma era onde a nossa compreensão sobre as emoções é limitada. Fomos condicionados a suprimir, negar, ignorar ou simplesmente “entorpecer” nossos sentimentos. Não é de se surpreender, portanto, que a maioria das pessoas não tenha clareza sobre o que realmente está se passando em seu mundo emocional.
Geralmente, estamos muito mais atentos ao que é físico do que ao que é emocional. Consequentemente, tendemos a registrar o que está acontecendo quando a manifestação é física, em vez de emocional.
Para ilustrar isso, considere um cenário comum em certos relacionamentos:
* A Pessoa A diz ou faz algo emocionalmente prejudicial à Pessoa B.
* A Pessoa B tem uma reação intensa a isso.
* A Pessoa A não compreende essa reação intensa e, por consequência, culpa a Pessoa B por estar reagindo daquela forma.
Pessoas externas também tendem a não entender a dinâmica. A Pessoa B, que está visivelmente desregulada emocionalmente, é vista como a disfuncional, aquela que precisa de ajuda psicológica.
### A Lente Física versus a Lente Emocional
Para tornar essa dinâmica mais clara, vamos analisá-la através de uma perspectiva puramente física:
Imagine que a Pessoa A machuca a Pessoa B, atingindo sua perna, quebrando-a. A Pessoa B tem uma reação intensa a essa lesão física. A Pessoa A não compreende essa intensidade e culpa a Pessoa B por reagir. Observadores externos também não entendem o ocorrido. A Pessoa B, ferida e expressando dor, é rotulada como a disfuncional.
É evidente o quão abusiva e ilógica essa situação se torna quando olhamos pelo prisma físico. Tratamos o aspecto emocional da existência com um nível extremo de desconsideração. Este é um problema grave, visto que a camada emocional é o cerne da nossa existência na Terra.
Se as coisas físicas fossem o mais importante, ninguém que perdesse um relacionamento deixaria de comer, beber e negligenciar a higiene pessoal, ou sequer consideraria o suicídio. Pessoas fisicamente saudáveis ou ricas não cometeriam suicídio porque, presumivelmente, estariam felizes. Ninguém com todas as necessidades físicas supridas buscaria obsessivamente mais e mais.
É crucial reconhecer que o emocional influencia o físico. **Toda doença física tem uma raiz emocional.** Portanto, é vital ter consciência do que está ocorrendo no nível emocional. Não é possível responder adequadamente a algo do qual você não tem consciência ou não compreende a fundo.
### A Técnica da Fisicalização Emocional
Um truque eficaz para realmente entender o que está acontecendo internamente é **fisicalizar o emocional**. Existem duas formas principais de fazer isso:
1. **Mover o corpo** de forma que o físico reflita exatamente o que está ocorrendo emocionalmente.
2. **Criar uma versão física ou analogia** do que está acontecendo no campo emocional.
#### Exemplos Práticos de Fisicalização Corporal
Vejamos exemplos de como mover o corpo para espelhar o estado emocional:
**Exemplo 1: Tom e Me**
Tom e Me não se sentem próximos ou seguros no relacionamento. Deitados na cama, Me expressa sentir-se sozinha, dizendo que Tom não está verdadeiramente presente para ela. Tom, frustrado, rebate: “Estou bem aqui! Estamos na cama juntos, conversando. Como você pode se sentir sozinha quando estou aqui?”.
Neste caso, a realidade física (estarem juntos na cama) age como uma forma de *gaslighting* para o que Me sente emocionalmente.
Para aplicar o exercício, eles decidem fisicalizar suas emoções. Ambos voltam a atenção para dentro, notando seus sentimentos, e usam o corpo para expressá-los, buscando que a postura física reflita o estado interno.
* **Tom** percebe o impulso de se afastar dos outros, incluindo Me, e sente-se exausto. Fisicamente, ele se move para o outro lado do quarto, deita-se de costas para a porta e começa a mexer no batente da porta.
* **Me** sente-se desesperada e faminta. Seu corpo espelha isso: ela se ajoelha no chão, faz uma reverência profunda e suplicante, e começa a arranhar o carpete entre ela e Tom com as mãos alternadas, como se tentasse puxá-lo para perto ou a si mesma para ele.
Essa representação corporal revela a verdadeira dinâmica: uma luta competitiva por valor e desejo, muito diferente da imagem de um casal apenas deitado junto após um longo dia. Com essa clareza, eles podem, de fato, abordar o que realmente está acontecendo em si mesmos e no relacionamento.
**Exemplo 2: O Desafio de Jan**
Jan, que foi ensinado a suprimir emoções, busca desenvolver-se emocionalmente. Ele decide fisicalizar o que sente para ter mais consciência. Após uma briga com um colega de trabalho, ele permite que o sentimento interno tome conta do corpo.
Ele se surpreende ao descobrir que seu corpo não se move; está completamente congelado. Ele mantém essa rigidez, reconhecendo isso como uma resposta de “congelamento” (freeze response) a um medo. Essa percepção o choca, pois ele negaria estar com medo 15 minutos antes.
Jan permanece nesse estado congelado até começar a sentir o medo subjacente ao congelamento. Eventualmente, a sensação de estar solidamente paralisado perde a força, e ele permite que seu corpo se mova novamente para refletir o estado emocional real. Seu corpo assume uma posição fetal, enrolado.
Essa fisicalização ajuda Jan a ver que o conflito o aterroriza, ativando o sentimento de ser um menino pequeno incapaz de escapar da raiva do pai. Com essa consciência, ele pôde cuidar desse “menino interior” e, simultaneamente, reconhecer que é um adulto seguro, não mais naquela situação. Ele também percebeu que a raiva do colega era, na verdade, uma proteção para o medo.
No encontro seguinte, Jan foi direto ao ponto e pediu ao colega para que lhe dissesse exatamente o que ele temia que acontecesse. Ao responder às preocupações do colega, a carga emocional diminuiu drasticamente. Essa habilidade de desescalar qualquer pessoa foi muito empoderadora para Jan.
**Exemplo 3: Brea e a Visita**
Brea soube que sua melhor amiga viria visitá-la. Ao desligar o telefone, ela se pegou pensando em todas as formas como a visita poderia não se concretizar. Sentia-se como uma “bola de energia” interna, mas agia calmamente, limpando o balcão da cozinha.
Brea percebeu o tormento dessa discrepância entre seu estado externo calmo e o interno agitado. Para entender, ela fisicalizou suas emoções:
* Primeiro, ela permitiu que a **excitação** dominasse seu corpo. Ela começou a pular e saltitar como uma criança prestes a ir para a Disneyland. Ela notou que isso a deixava vulnerável, pois sentia oposição interna a essa excitação.
* Então, ela permitiu que o **aspecto oposto à empolgação** tomasse conta. Seu corpo se moveu para uma posição de cabeça apoiada na mão, em um lamento de desapontamento.
Brea tomou consciência de que estava extremamente animada (uma emoção que ela não se permitia admitir) e, ao mesmo tempo, aterrorizada com a possibilidade de desapontamento, ligada a traumas e crenças antigas.
**Nota Importante:** Ao usar este exercício de fisicalização, **evite agressões**. Não é apropriado bater em alguém ou causar danos a si mesmo. Contudo, existem inúmeras formas criativas de expressar essas emoções sem causar prejuízo físico a si ou a terceiros.
Em outro caso, um cliente sentia que o parceiro não via a realidade de sua dor emocional. Foi sugerido que ele usasse *body paint* e imagens para fisicalizar seu estado. Ele desenhou uma ferida aberta sobre o coração e imprimiu fotos que representavam seu sofrimento: uma pessoa emaciada em um campo de concentração, outra morrendo em um leito de hospital, e um lobo faminto preso em uma jaula. Essa representação explícita despertou ambos para o nível da dor emocional – a sensação de estar faminto emocionalmente, com o coração partido e preso em um estado de carência na relação.
### A Analogia Física
A segunda forma de fisicalizar é pensar em uma analogia física.
**Exemplo: Joti e Ana**
Joti e Ana são melhores amigas e se dão muito bem quando estão sozinhas. No entanto, em público, surge uma tensão, e nenhuma das duas se sente totalmente aliada da outra.
Joti imaginou como seria esse estado emocional se fosse um evento físico: ela viu as duas em uma academia, vestidas impecavelmente, tentando ganhar a atenção dos homens, enquanto sabotavam uma à outra. Ela se viu puxando o cabelo de Ana e chutando-a, enquanto flertava com o homem, e Ana reagindo gritando sobre como Joti havia sido colocada em lista de espera para a faculdade.
Essa visualização ajudou Joti a entender que a dinâmica era competitiva, onde ambas lutavam para serem vistas como as mais valiosas e, consequentemente, as mais desejáveis, em detrimento uma da outra. Com essa percepção, elas puderam conversar e buscar formas de tornar o relacionamento mais seguro em ambientes públicos.
**Exemplo: Remington e o Trabalho**
Remington estava enfrentando sérios problemas no trabalho e tinha dificuldade em descrever seu estado ao terapeuta. Ele fechou os olhos e pediu uma imagem física. Ele viu um marinheiro se afogando em um mar revolto durante uma tempestade violenta. O pescoço do marinheiro estava preso nas cordas do mastro, sendo puxado para o fundo.
A partir dessa imagem, Remington entendeu que percebia a situação de trabalho como uma crise total. Sentia um pressentimento de desgraça, uma luta pela sobrevivência, mas estava indefeso e impotente, impedido de melhorar por forças externas. A análise detalhada da imagem revelou as histórias que ele contava a si mesmo sobre a situação.
Fisicalizar as emoções pode ajudá-lo a tomar consciência do que está ocorrendo no nível emocional dentro de você, em seus relacionamentos e em qualquer situação da vida. Ajuda também a levar a sério o que está acontecendo emocionalmente, informando a maneira mais adequada de lidar consigo mesmo, com os outros e com as circunstâncias.
Perguntas Frequentes
- Como posso começar a fisicalizar minhas emoções?
Comece escolhendo uma emoção específica que está sentindo e mova seu corpo de maneira que reflita esse sentimento, ou crie uma imagem mental de um evento físico que represente seu estado interno. - O que fazer se eu sentir vontade de me machucar durante o exercício?
Pare imediatamente. O objetivo é a conscientização, não a autolesão. Encontre formas criativas e seguras de expressar a intensidade da emoção no seu corpo (como movimentos amplos ou posturas). - Por que a consciência emocional é tão importante se as coisas físicas parecem ser mais reais?
A consciência emocional é fundamental porque ela é a raiz de muitas manifestações físicas e influencia diretamente nossas interações e bem-estar geral, mesmo que as consequências físicas sejam mais visíveis para os outros. - É possível usar objetos ou arte para fisicalizar o que sinto?
Sim. É possível usar arte corporal, maquiagem ou imagens impressas para representar visualmente a profundidade da dor ou da emoção que você está sentindo internamente. - Qual a melhor forma de lidar com a resistência ao expressar emoções reprimidas?
Permita que o corpo comece a se mover livremente, mesmo que pareça estranho ou contrário à sua vontade consciente inicial. A rigidez ou o congelamento também são formas válidas de fisicalização que revelam respostas de medo ou defesa.
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