Fazer Trabalho de Sombra Para Fugir da Sua Dor?

A Armadilha Comum no Shadow Work: Evitando a Resistência à Própria Dor

O termo “shadow work” (trabalho de sombra) é amplamente utilizado em círculos de psicologia e espiritualidade para descrever uma infinidade de processos destinados a tornar consciente aquilo que reside no inconsciente. Essa ferramenta é considerada uma das mais poderosas disponíveis. Contudo, como qualquer ferramenta, a eficácia depende de como a utilizamos e, mais crucialmente, do propósito para o qual a empregamos.

É muito fácil utilizar o trabalho de sombra como um meio para resistir a si mesmo e tentar fugir de quem você é. Isso se torna especialmente evidente quando lidamos com a nossa própria dor. Se essa for a abordagem, a dor tende a se intensificar. Neste artigo, exploraremos uma das armadilhas mais comuns encontradas no *shadow work* para que você possa reconhecê-la e se afastar dela.

As Origens do Conceito de Sombra

Há muitos anos, o psicólogo revolucionário Carl Jung, enquanto estudava com Freud, observou que seus pacientes apresentavam aspectos de si mesmos dos quais tinham consciência e, por outro lado, aspectos dos quais não tinham conhecimento.

A consciência é frequentemente comparada à luz. Tornar-se consciente de algo é o mesmo que conseguir vê-lo quando exposto à luz. Por outro lado, quando algo é inconsciente, não conseguimos enxergá-lo; é como tentar ver no escuro.

Por essa razão, Jung passou a se referir aos aspectos inconscientes de uma pessoa — aqueles que ela não consegue ver ou reconhecer — como sua **sombra**. A sombra humana engloba qualquer aspecto de uma pessoa que não esteja exposto à luz da consciência.

Todo ser humano que foi socializado (o que inclui todos nós) passou por um processo de divisão do self em partes: partes que são aceitas e partes que são renegadas. Essa rejeição do eu é o que dá origem ao autodesprezo. O vazio que sentimos é, em essência, o resultado dessas partes de nós mesmos que estão ausentes, rejeitadas ou não assumidas.

A alma busca nos tornar inteiros novamente e nos oferece oportunidades constantes para trazer o inconsciente à consciência. Para alcançar essa plenitude, no entanto, precisamos encarar e aceitar os aspectos de nós mesmos que foram negados, rejeitados e reprimidos. É nisto que reside o propósito fundamental do *shadow work*.

Shadow Work e a Dor: A Distinção Crucial

Como tudo isso se relaciona com a dor? O trabalho de sombra é excepcionalmente eficaz na redução e até eliminação da dor. Muitas pessoas iniciam o *shadow work* justamente com o objetivo de cessar o sofrimento. Para resolver um problema ou melhorar uma situação, é fundamental saber o que está acontecendo.

Grande parte da dor de uma pessoa não é conhecida por sua mente consciente; ela está, de fato, na sombra. Existem inúmeros processos de trabalho de sombra que auxiliam a tomar consciência da causa da dor que estamos sentindo e muitos que, de fato, ajudam a resolver diretamente o que está nos causando sofrimento.

A dor é um sinal para muitas coisas que foram reprimidas, negadas, suprimidas e rejeitadas dentro de nós. Ela nos alerta sobre processos inconscientes em andamento que tornam nossa vida dolorosa.

Quando as pessoas ouvem sobre a promessa de alívio da dor oferecida pelo *shadow work*, elas tendem a associar essa prática ao fim do sofrimento. E é aqui que mora uma grande armadilha.

Essa dificuldade reside na distinção entre:

1. Sair e se afastar da dor para que ela desapareça.
2. Aproximar-se da dor para cuidar dela com amor, aliviando-a no processo.

Isso pode parecer uma distinção mínima, mas a diferença na energia e intenção é fundamental.

O Exemplo da Criança em Sofrimento

Imagine o seguinte cenário, que pode ser bastante comum: você é uma criança chorando por sentir dor emocional. Agora, imagine que seu progenitor não consegue lidar com o sentimento gerado pela sua tristeza. Ele quer que a dor que ele sente por sua causa desapareça, e a única forma de fazer isso é fazer você parar de chorar.

Neste primeiro caso, o pai ou a mãe se aproxima para consolar ou resolver o problema, mas não funciona. A razão é que, se a verdade fosse dita, a abordagem seria: “Filho(a), vim ficar com você agora para que você pare de chorar e deixe de ser um problema para mim.”

Neste cenário, o progenitor está em **resistência** à sua dor e quer se afastar de você, a parte que está ferida.

Agora, imagine o mesmo cenário. Você está chorando por sentir dor emocional. Mas, desta vez, seu progenitor sente empatia pela sua dor. O cuidado que ele tem com a sua experiência de vida, e também com a dele, o faz querer estar presente com você se estiver sofrendo. Isso o motiva a querer genuinamente entender o que causa sua dor para que ele possa assumir uma responsabilidade positiva e genuína pelo seu bem-estar, encontrando uma forma de ajudá-lo a se sentir melhor.

Neste segundo caso, o progenitor está se aproximando para cuidar da sua dor com amor.

Com esses exemplos, fica claro que a energia e a intenção por trás da ação são determinantes.

A Dor como Alarme e a Necessidade de Cuidado

Quando estamos sentindo dor, essa dor pode ser comparada a uma criança interior que clama por nossa ajuda. Sentir dor significa que estamos ouvindo esses chamados. Este aspecto de nós necessita de nosso cuidado empático, nosso desejo de nos aproximarmos para entendê-lo, aprender com ele e cuidar dele com base nas informações que apuramos.

Infelizmente, muitos de nós abordam o *shadow work* como o primeiro exemplo parental: usamos a ferramenta para tentar fazer nossa dor se calar e ir embora. Na verdade, ficamos desesperados para que ela pare.

Contudo, essa atitude de querer afastar a dor é, em si, combustível para o fogo do sofrimento, fazendo-o intensificar-se.

Quando fazemos o trabalho de sombra para nos livrar da dor, estamos em resistência a nós mesmos. Estamos tentando fugir de quem somos, o que é um ato profundamente pouco amoroso. Precisamos fazer o *shadow work* a partir de um lugar de amor. Amar é escolher conscientemente aceitar algo como parte de nós, é um estado de integração e posse positiva profunda.

Devemos fazer o trabalho de sombra para sentir, ver, ouvir e compreender profundamente nossa dor. Então, usamos esse entendimento para informar nossas escolhas e ações, cuidando do nosso bem-estar da maneira que aliviará o sofrimento. A dor, em si, não é o problema; ela é apenas o alarme que nos alerta sobre algo que necessita de nossa presença, atenção, curiosidade, foco, amor e assistência.

Se estamos usando o *shadow work* para evitar sentir a dor, isso significa que há uma parte de nós em resistência a se aproximar e cuidar dessa dor. Sugere-se realizar o trabalho de partes (*parts work*) com esse aspecto de si mesmo. Afinal, essa parte sua também está sofrendo. Fazer isso seria o primeiro passo para se aproximar e cuidar da sua dor. Essencialmente, o que devemos olhar primeiro é a dor por trás da sua resistência à sua própria dor, assumindo uma posse positiva dela.

Perguntas Frequentes

  • O que é o “shadow work”?
    É qualquer processo que visa trazer aspectos do inconsciente para o campo da consciência.
  • Qual é a principal armadilha ao lidar com a dor usando o trabalho de sombra?
    A principal armadilha é usar a ferramenta como um meio para resistir e fugir da própria dor, em vez de se aproximar dela com amor e cuidado.
  • Por que a dor se intensifica quando tentamos fugir dela?
    Tentar silenciar ou escapar da dor é um ato de autossabotagem e resistência, o que adiciona mais “combustível ao fogo” do sofrimento.
  • Como a dor se relaciona com a sombra?
    A dor frequentemente alerta para aspectos de nós que foram negados, reprimidos ou rejeitados e que residem na sombra.
  • Qual a melhor forma de abordar a dor durante o trabalho de sombra?
    A melhor forma é abordá-la com amor, aproximando-se para entender, cuidar e integrar o que está causando o sofrimento.