A Grande Doença da Independência

Existem períodos na história em que a humanidade coletivamente parece perder o juízo. Nem todas as epidemias são físicas; algumas são psicológicas, configurando verdadeiras epidemias da mente. Durante esses períodos, as pessoas perdem a racionalidade, a coerência e deixam de basear suas percepções em evidências. Tornam-se profundamente disfuncionais e perdem qualquer alinhamento com a realidade, sem sequer perceberem.

Nesses momentos, os padrões de sanidade são redefinidos para se alinharem à nova insanidade, fazendo com que a loucura coletiva se torne a nova normalidade.

Estamos vivendo em um desses períodos, e um elemento central desta epidemia mental específica é a doença da independência.

A Obsessão pela Independência

O que significa essa “doença da independência”? Basta olhar ao redor para ver que, no mundo atual, as pessoas acreditam fervorosamente na virtude e na correção da independência. Ela se tornou uma nova definição de estar saudável e empoderado.

Muitos professores de desenvolvimento pessoal e espiritualidade ensinam que o objetivo é ser completo em si mesmo a ponto de não precisar de nada nem ninguém externo. Muitos terapeutas aconselham que a cura envolve aprender a ficar sozinho, depender apenas de si e suprir as próprias necessidades. Da mesma forma, pais criam filhos com a expectativa de que eles sigam sozinhos pelo mundo, sustentando-se por conta própria.

Além disso, ideologias políticas promovem o deslocamento da responsabilidade pelo bem-estar para o indivíduo.

Perdemos completamente o contato com a realidade de que os seres humanos são uma espécie social. Nós prosperamos em grupos e somos relacionalmente dependentes, mesmo na vida adulta. Nossas necessidades de dependência relacional — necessidades que um ser humano não pode suprir sozinho ou, mesmo que possa, ainda precisa obter de outros — são cruciais.

Para prosperar e ser saudável em níveis físico, emocional, mental e espiritual, essas necessidades de dependência precisam ser atendidas.

As Raízes Históricas da Separação

A pergunta que fica é: por que estamos nos tornando cada vez mais separados uns dos outros? Por que mudamos de viver em tribos para morar em casas com múltiplas gerações, depois para casas unifamiliares e, agora, muitas pessoas vivem sozinhas em apartamentos?

A menos que sejamos historiadores, não nos lembramos de como a transição da vida nômade de forrageamento para a agricultura permanente alterou as sociedades, mudando grupos de parentesco móveis maiores para unidades familiares ligadas a um único pedaço de terra.

Também não lembramos que foi a Revolução Industrial que levou os empregos para fábricas e escritórios nas cidades, quebrando a conexão entre casa e trabalho, e também entre as pessoas e a terra. Isso forçou gerações mais jovens a migrarem para centros urbanos em busca de trabalho assalariado, onde a nova estrutura social estabeleceu o modelo de lares independentes, diferentemente das comunidades anteriores que viviam e trabalhavam juntas, dependendo umas das outras.

A casa era o centro do trabalho e das grandes famílias extensas, que formavam a força de trabalho coletiva.

A situação é complexa: por um lado, temos um jovem buscando oportunidade econômica, buscando liberdade e autonomia pessoal, tornando-se menos dependente de herança. Por outro lado, temos empresas ávidas por alimentar essa divisão entre trabalho e lar para ter funcionários mais produtivos, e companhias de hipoteca ansiosas por conceder mais financiamentos, o que só é possível com a separação de lares. Governos também incentivam a urbanização e a criação de instituições públicas, transformando papéis domésticos como cuidado e educação em funções governamentais. Planos de pensão e seguridade social canalizam fundos de trabalhadores para gestões governamentais.

Tudo isso desloca a dependência das pessoas de suas comunidades para a dependência do governo e do sistema que ele cria. Campanhas de marketing e estratégias midiáticas são desenhadas para influenciar o pensamento das pessoas, favorecendo o individualismo.

Com tudo isso, as atitudes culturais mudaram drasticamente, especialmente nas sociedades ocidentais, movendo-se em direção à independência e autossuficiência. Ter o próprio lar e se sustentar passou a ser uma medida de sucesso e maturidade, atrelada à autoestima e poder pessoal.

A História Forçada da Dependência

A mudança das tribos de forrageamento para as sociedades agrícolas, que gerou as casas multigeracionais, foi, na verdade, uma adaptação forçada. A agricultura primitiva era mais intensiva em trabalho e menos saudável do que a vida de forrageamento. Essa mudança ocorreu quando o estilo de vida nômade se tornou insustentável devido a fatores como flutuações climáticas, esgotamento de recursos e a necessidade de populações se fixarem em áreas ricas em recursos.

Com a fixação e o aumento da taxa de natalidade, o espaço se tornou superpovoado para o forrageamento. Eles caíram em uma espécie de “armadilha populacional”, onde o tamanho da terra não suportava mais o crescimento populacional apenas com caça e coleta. A agricultura fornecia mais alimentos por acre e garantia maior controle sobre o suprimento. Embora os indivíduos em grupos agrícolas fossem menos saudáveis (devido à má alimentação e doenças) do que os forrageadores, as comunidades agrícolas podiam sustentar um número muito maior de pessoas. Sua pura quantidade lhes permitiu organizar-se em grupos capazes de superar e deslocar as tribos de forrageamento remanescentes.

De repente, a agricultura se tornou uma necessidade para a sobrevivência entre outros grupos agrícolas. Enquanto os forrageadores viam os recursos como comunais, a agricultura impôs o conceito de propriedade privada.

A Sombra da Dor Relacional

A grande sombra que espreita por trás da direção de separação e independência no mundo pós-agrícola é a dor relacional — o sofrimento que experimentamos em nossos relacionamentos. Esta dor é a força motriz da obsessão atual pela independência.

Todos nós vivenciamos a dor relacional em algum grau. Para entender a dor que motivou as pessoas a votarem pela independência e separação no mundo pós-agrícola, basta imaginar voltar a morar com os pais e avós, sendo totalmente dependente financeiramente e do que eles possuem. Nessas casas multigeracionais, há experiências que variam de fricção social a trauma relacional severo. As pessoas acham estressante (e, em sistemas familiares disfuncionais, traumatizante) a presença constante dessa fricção e dinâmicas interpessoais desconfortáveis.

Essa angústia relacional não se limita à família; vivenciamos isso com outras pessoas em geral. A descomunalização de nossas vidas nos permite evitar o atrito social. Não somos mais impotentes diante dos caprichos de autoridades, como os anciãos. Não precisamos ser observados ou perturbados por outros. Podemos criar espaço psicológico, emocional e físico onde não há pressão para sermos de uma maneira específica para os outros. Isso nos causa relaxamento e alívio.

Ao longo do tempo, em resposta a essas dores, surgiram filosofias e movimentos sociais, como o Iluminismo, o liberalismo clássico, o transcendentalismo, o existencialismo e o individualismo moderno. Hoje, vivemos na era do neoliberalismo, da cidadania líquida, do autoajuda, da auto-otimização radical e da espiritualidade New Age. A independência é um valor supremo no mundo moderno, especialmente no ocidente, sendo tratada como uma “vacca sagrada”.

A Ilusão da Independência

As pessoas estão perdendo a consciência de que não existe independência. No nível mais básico, dependemos de oxigênio, água, luz solar e alimentos. Dependemos do microbioma — bactérias e fungos essenciais para a vida. Dependemos do ecossistema e das nossas necessidades de dependência, como conexão social e toque físico.

Indo mais a fundo, vivemos na ilusão da independência, embora, na verdade, sejamos mais dependentes do que nunca em toda a história. Como isso é possível? A obsessão moderna pela independência baseia-se na nossa capacidade de viver sozinhos, ganhar dinheiro, trabalhar remotamente e não depender de nossa comunidade, pais e parceiros.

Isso só é possível por causa de uma dependência subjacente ao sistema — uma teia altamente complexa de infraestrutura que as pessoas não reconhecem. Antigamente, éramos dependentes do que a natureza fornecia. Hoje, perdemos o conhecimento e as habilidades para viver da terra. Em vez disso, dependemos de instituições financeiras, de fazendeiros que cultivam, de serviços de transporte que levam comida às lojas, e de todos os bens necessários para prosperar (roupas, carros). Dependemos da internet, da conectividade, de recursos como petróleo e eletricidade, e de todas as pessoas e processos que os disponibilizam. Dependemos do governo para infraestrutura, serviços de emergência e utilidades públicas.

Uma pessoa se sente independente ao depositar dinheiro no banco e usar essa quantia para comprar seu próprio apartamento. Embora isso possa ser apresentado como empoderador, a pessoa está, na verdade, dependente de todo o sistema financeiro, do banco e da empresa de hipoteca.

Uma pessoa se sente independente ao seguir um GPS para qualquer lugar, mas ignora que está dependente do sistema de GPS funcionar, terceirizando a habilidade básica de navegação. Diferente de nossos ancestrais, que eram generalistas com muitas habilidades, a maioria de nós é apenas especialista em uma única competência que trocamos por tudo o que precisamos. Se a necessidade por essa única habilidade se torna obsoleta, nosso meio de sobrevivência se torna obsoleto. Vivemos em um estado profundo de dependência que só se torna visível quando falha. Isso nos torna vulneráveis e ignorantes.

Podemos nos convencer de que somos independentes e encorajar os outros a serem independentes, enquanto perdemos de vista o fato de que estamos totalmente dependentes. Apenas mudamos o objeto de nossa dependência: passamos de uma dependência social parcial para uma dependência sistêmica total. O preço que pagamos por essa obsessão pela independência não é apenas a realidade — é a conexão humana e a segurança.

Quanto mais nos separamos, mais adoecemos, pois nossas necessidades de dependência relacional não são atendidas. Quanto menos conectados estamos, mais vulneráveis nos tornamos ao controle daqueles que gerenciam os sistemas dos quais dependemos. Quanto mais dependentes estamos de quem cria e controla o sistema, mais impotentes somos para detê-los se eles agirem contra nossos interesses.

A verdade é que a dependência assusta as pessoas; tornou-se uma palavra suja. Por que isso nos assusta tanto? Porque nos faz sentir impotentes diante de fatores externos. O maior terror das pessoas é ser impotente perante outros. Não temeríamos isso se não tivéssemos tido más experiências ao depender dos outros. Se nossas necessidades de dependência não foram atendidas adequadamente em nossa vida inicial, ou pior, se fomos feridos por aqueles de quem dependíamos, ficamos desesperados para não depender de mais ninguém.

Adotamos ideologias que promovem a ideia de que podemos obter tudo o que precisamos internamente ou por nós mesmos. Buscamos a menor dependência possível dos outros, mesmo que isso signifique aceitar uma ilusão. Para aqueles que viram a dependência como uma abertura para o estresse ou o dano, a ideia de que podem suprir todas as suas necessidades, de que podem ser imunes à influência alheia, é empoderadora.

O ponto crucial não é a dependência em si, embora ela tenha se tornado o bode expiatório. O problema real é o quão ruins somos em praticar relacionamentos, em ver o bem-estar do outro como inseparável do nosso, impedindo-nos de agir contra os interesses alheios para satisfazer os nossos. As pessoas são tão ruins em criar relacionamentos verdadeiramente amorosos e de apoio que a humanidade decidiu que é mais seguro depender do sistema impessoal, de uma vasta rede de pessoas que nunca encontraremos, do que depender de nossa família, comunidade e parceiros. O sistema é mantido por pessoas, mas presumimos que elas agirão em nossos melhores interesses, e chamamos essa mudança de empoderamento pessoal.

A realidade é que estamos muito mais dependentes de outras pessoas do que jamais estivemos. Mas, como não as vemos nem interagimos diretamente com elas diariamente, podemos nos sentir independentes. Enquanto nos tornamos mais dependentes do que nunca, perdemos nosso “nós”.

A Calamidade Social

Essa obsessão pela independência resultou em calamidade social, uma perda de conexão e pertencimento. Nossos laços comunitários estão se corroendo. Há menos pessoas se voluntariando e investindo energia em suas comunidades. As pessoas sentem tanta pressão para fazer tudo sozinhas que estão sob estresse constante, tentando fazer mais do que uma pessoa consegue, o que leva ao burnout — não por excesso de trabalho, mas por se manterem em estado de estresse contínuo.

As pessoas evitam buscar apoio por vergonha e, quando buscam, não são apoiadas. Falhamos em expor falhas sistêmicas porque os indivíduos são culpados pelos problemas. Em vez disso, estamos nos afastando da vulnerabilidade mútua necessária para uma conexão emocional profunda. Confiar emocionalmente ou cocarreguar, que é nossa natureza, é agora tratado como uma forma de fracasso pessoal.

As pessoas estão agindo de forma cada vez mais narcisista, como ilhas isoladas, reforçando a ideia de que os outros não são confiáveis, o que, por sua vez, reforça a obsessão pela independência. O resultado é uma verdadeira epidemia de solidão.

Nossos laços sociais estão sendo cortados, e não estamos fazendo nada para impedir isso; pelo contrário, estamos participando ativamente desse corte, usando filosofias e ideologias para justificar essa ação. Com isso, perdemos os benefícios vitais que obtemos da tribo e da comunidade: os retornos positivos de viver juntos e depender daqueles com quem convivemos. Não podemos construir um “nós” quando tudo é sobre “eu”. Por isso, estamos solitários e vulneráveis.

Esta doença da independência levou ao hiperindividualismo. No entanto, lutamos contra essa solidão, contra essa vulnerabilidade, e também pela própria ilusão.

A Verdade da Interdependência

Interdependência é a realidade da existência que levamos. Dentro dessa realidade, a autonomia individual e a coesão social não precisam ser mutuamente exclusivas. O caminho a seguir não é a independência, mas sim a maestria do relacionamento.

A interdependência é a verdade do relacionamento. Precisamos uns dos outros e dependemos uns dos outros. Ao mesmo tempo, em um relacionamento há um “você” e um “eu”. Isso significa que a autonomia e o autoempoderamento também fazem parte do cenário de um relacionamento positivo. O autoempoderamento também é necessário.

A interdependência consciente é o caminho do futuro.

Perguntas Frequentes

  • Como a industrialização impactou a estrutura social?
    A industrialização deslocou o trabalho para fábricas e escritórios nas cidades, separando o lar do ambiente de trabalho e forçando gerações mais jovens a migrarem para centros urbanos, estabelecendo o padrão de lares independentes.
  • O que é a “doença da independência”?
    É a crença cultural generalizada de que a autossuficiência total e a ausência de necessidade de outros são o ideal de saúde e empoderamento, o que contradiz a natureza social humana.
  • Por que a dependência é vista negativamente hoje?
    A dependência é temida porque nos faz sentir impotentes. Esse medo geralmente surge de experiências passadas negativas ou traumas relacionados à dependência de figuras significativas na vida precoce.
  • Qual a diferença entre a dependência de antes e a de agora?
    Antigamente, a dependência era social e mais visível (dependência da comunidade e família). Hoje, a dependência é sistêmica e invisível, focada em infraestruturas complexas, instituições financeiras e governamentais.
  • É possível ter autonomia em um sistema interdependente?
    Sim. A interdependência consciente reconhece a necessidade mútua, mas também permite a autonomia individual e o autoempoderamento como partes integrantes de relacionamentos saudáveis.

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