O Obstáculo Inesperado: Como Nossas Próprias Defesas Impedem o Que Desejamos
À primeira vista, pode ser difícil de aceitar, mas a verdade é que a coisa que mais desejamos e realmente precisamos pode ser o próprio obstáculo em nosso caminho. Parece totalmente contraintuitivo, mas todos nós desenvolvemos formas de nos autossabotar e impedir de alcançar aquilo que realmente queremos.
Neste artigo, vamos explorar a principal maneira pela qual nos colocamos no caminho do que necessitamos e desejamos, e o que pode ser feito para resolver essa situação.
As Personas Protetoras: Nossas Adaptações de Sobrevivência
Para a maioria das pessoas, o conceito inicial pode não fazer sentido imediato. É fundamental entender que os indivíduos ajustam e modificam seu comportamento de acordo com o ambiente em que se encontram e as pessoas ao redor.
Isso começa na infância. Adaptamo-nos à personalidade, crenças, desejos, necessidades, gostos e aversões de nossos pais. Adaptamo-nos à nossa cultura, à língua que aprendemos, às escolas que frequentamos e aos nossos pares. Acima de tudo, adaptamo-nos às situações traumáticas que vivenciamos.
Uma definição simples de trauma é “angústia sem resolução”. O que deve chamar a atenção nesta definição é que o trauma pode abranger qualquer coisa, desde o desmame de um bebê até experiências crônicas onde nos sentimos inferiores aos outros, ou mesmo eventos extremos como a guerra ou um acidente de carro. O trauma afeta todas as classes sociais, idades, raças e religiões; todos nós já experimentamos algum tipo de angústia não resolvida.
Como resultado dessa experiência traumática, fazemos adaptações em nossa personalidade.
A Cisão da Consciência e o Surgimento do Protetor
Quando vivenciamos um trauma, dividimos nossa consciência. Isso é um ato de autopreservação. Criamos uma divisão entre o “eu vulnerável” e o “eu que lidou com essa vulnerabilidade” para nos autopreservarmos naquela situação específica.
Posteriormente, passamos a nos identificar com as partes de nós que agiram para lidar com a situação e nos protegeram. Essas são as partes que nos permitiram manter a distância máxima possível da vulnerabilidade.
Vejamos um exemplo: imagine uma criança que sofre um abandono súbito e incompreensível. Nesse momento, a criança pode se desidentificar da parte de si mesma que está confusa, aterrorizada, impotente e sem entender o porquê. Em contrapartida, desenvolve uma adaptação de descobrir tudo, de aprender tudo o que há para saber sobre o comportamento humano.
Essa criança passa a acreditar que, se souber tudo sobre as pessoas, especialmente sobre o comportamento humano, não será mais pega de surpresa por comportamentos dolorosos dos outros. Ela pode até pensar que conseguirá prevenir que tais coisas aconteçam. Essa “persona protetora” se desenvolve para dar a ela um maior senso de controle no contexto de seus relacionamentos.
Essa persona é com a qual ela passará a se identificar, pensando: “Isso sou eu”.
Vejamos mais dois exemplos práticos:
Exemplo 1: Julian e a Positividade Tóxica
Julian cresceu em um ambiente familiar repleto de conflitos e com uma mãe cronicamente deprimida. Ele percebeu que não havia nada que pudesse fazer para fazer as pessoas ao seu redor se sentirem emocionalmente melhor. Essa impotência o levou a desenvolver uma estratégia adaptativa: focar apenas no lado positivo. Ele criou um “eu poliana” que não tinha interesse em negatividade de qualquer tipo.
O problema é que, aos 40 anos, Julian deseja profundamente encontrar uma parceira compatível e ter filhos. No entanto, as três mulheres com quem ele se relacionou recentemente chegaram a um ponto onde se sentiram isoladas e julgadas, acabando por deixá-lo.
Isso ocorreu porque a persona protetora de positividade tóxica de Julian fazia com que, sempre que as parceiras compartilhavam sentimentos verdadeiros, elas fossem ignoradas e até envergonhadas por tê-los. Não havia espaço para emoções ou verdade, pois Julian deixava claro que apenas a positividade era aceitável. As mulheres começaram a sentir culpa e vergonha por terem sentimentos negativos.
Além disso, Julian se tornou um gaslighter sem saber. Sempre que algo ruim acontecia, ele simplesmente negava a ocorrência e reformulava tudo. Isso levou duas das mulheres a duvidarem da própria sanidade e procurarem ajuda psicológica. Julian também se tornou fundamentalmente irresponsivo a feedbacks negativos, recusando-se a mudar comportamentos que as mulheres precisavam que fossem ajustados para que se sentissem bem no relacionamento.
A persona protetora de Julian é, ironicamente, o que está impedindo a realização de seu desejo mais profundo.
Exemplo 2: Naelli e a Masculinidade Forçada
Naelli foi criada em Compton, Los Angeles, uma área marcada pela pobreza e violência de gangues. Ela nunca conheceu o pai e sua mãe era viciada em metanfetamina, forçando Naelli a se virar sozinha.
Ela desenvolveu uma estratégia adaptativa: tornar-se “masculina”, emulando os homens que tinham mais poder em sua cultura — os membros de gangues. Ela começou a se vestir com roupas masculinas, agir de forma dura, exibir uma linguagem corporal rígida e agressiva e falar de maneira ameaçadora. Ela assumiu toda a responsabilidade para evitar futuras calamidades, identificando-se com a parte de si que podia lidar com a vida nas ruas.
O desejo profundo de Naelli é ser cuidada. Ela anseia pela experiência de ser feminina, suave e até brincalhona, como outras garotas que ela via na escola. No entanto, sua persona protetora a torna um ímã para homens que buscam uma mulher autossuficiente e que não exige responsabilidade deles.
Sua postura masculina repele os homens que adorariam cuidar de uma mulher feminina. Ela não faz as escolhas que a colocariam na posição de receber o cuidado que deseja, pois suas ações transmitem a mensagem: “Fique longe, eu cuido de mim mesma.”
Exemplo 3: Miles e o “Garoto Bonzinho”
Miles foi criado por uma mãe que, abraçando o movimento dos direitos das mulheres, nutria um forte sentimento negativo em relação aos homens. Ela criou Miles para ser o oposto de qualquer homem que a tivesse magoado ou magoado mulheres ao longo da história, sentindo-se especialmente ameaçada por um homem que tivesse poder.
Miles adaptou-se tornando-se a personificação do “garoto bonzinho”. Ele desenvolveu uma persona protetora super complacente, sempre pronta para agradar, quieta e controlada, que buscava liderança e estava disposta a seguir. É uma persona que parece fraca para desarmar os outros.
Miles deseja construir algo para si mesmo e tem a oportunidade de começar um negócio com um amigo. Ele está muito animado. Contudo, para ter sucesso e ser levado a sério por investidores e clientes, ele precisa liderar e falar de maneira imponente.
Isso não está acontecendo. Miles se fecha quando precisa falar, deixa outros assumirem, procura liderança em vez de tomá-la. Consequentemente, sua equipe não o respeita. Ele não estabelece limites e aceita contratos desvantajosos. Seu parceiro de negócios sente que terá que removê-lo do empreendimento, pois seu comportamento é um risco.
A persona protetora de Miles é o que está sabotando seu maior desejo de realização profissional.
O Caminho para a Expansão
Nossas personas protetoras são estratégias adaptativas para as inseguranças específicas que enfrentamos devido às nossas experiências de vida únicas. Elas podem ter nos ajudado a sobreviver e a nos adaptar ao trauma. Mas chega um ponto em que elas nos inibem, impedindo a expansão pessoal e a conquista do que mais desesperadamente queremos.
Isso é especialmente verdade para nossas primárias personas protetoras — nossa principal forma de nos mantermos seguros.
Nossas personas protetoras serão quebradas, mais cedo ou mais tarde, especialmente sob a pressão da dinâmica mundial atual. No entanto, como elas são as ferramentas que usamos para nos proteger, o processo de perdê-las é profundamente difícil e assustador. Seremos forçados a reencontrar os aspectos vulneráveis de nós mesmos que estamos escondendo atrás desses protetores — partes de nós com as quais perdemos contato há muito tempo.
Reintegrando e Escolhendo o Novo Caminho
O que podemos fazer é nos antecipar a esse processo. Podemos começar a reconhecer as maneiras pelas quais mantemos a nós mesmos seguros ou bem-sucedidos e ver como esses comportamentos adaptativos, na verdade, se opõem ao que mais precisamos e queremos.
Uma forma de exercitar isso é identificar um trauma que você vivenciou — uma experiência dolorosa e sem resolução. Escreva o que você fez esse evento significar e quais crenças você desenvolveu. Em seguida, anote o que mudou em sua personalidade, comportamento e rotina como resultado dessa experiência. Identifique o mecanismo de enfrentamento adotado e, consequentemente, sua persona protetora. Por fim, anote como os pensamentos, decisões e ações associadas a essa persona podem estar atrapalhando o que você deseja hoje.
É crucial não rejeitar ou condenar essa parte de você, pois ela está, afinal, tentando mantê-lo seguro com as ferramentas que conhece. O objetivo é trabalhar conscientemente para mudar sua perspectiva: reconhecer que essa persona e seus comportamentos não garantem mais sua segurança ou sucesso na vida adulta.
Em seguida, comece a tomar decisões diferentes e praticar novos comportamentos que estejam mais alinhados com suas necessidades e desejos atuais. Ao integrar conscientemente as personas protetoras que estão no caminho do que você deseja, você começará a se alinhar cada vez mais com elas. Quando todas as partes de você estiverem alinhadas com o que você realmente quer, isso tende a se tornar sua experiência vivida.
Perguntas Frequentes
- O que são as personas protetoras?
São adaptações de personalidade criadas como um ato de autopreservação em resposta a experiências traumáticas não resolvidas, dividindo a consciência entre o eu vulnerável e o eu que lidou com a vulnerabilidade. - Como o trauma influencia o desenvolvimento dessas personas?
O trauma, definido como angústia sem resolução, leva o indivíduo a criar estratégias (as personas) para se proteger de reviver aquela angústia, fazendo adaptações comportamentais e de crenças. - Por que as personas protetoras se tornam um problema na vida adulta?
Embora tenham sido úteis para a sobrevivência passada, essas estratégias adaptativas podem inibir o crescimento pessoal e impedir que a pessoa alcance seus desejos atuais, pois continuam operando sob a lógica da ameaça antiga. - É possível trabalhar com essas personas?
Sim, é possível trabalhar com elas conscientemente, sem rejeitá-las, e praticar novas decisões e comportamentos que estejam mais alinhados com o que se deseja no presente. - Qual a melhor forma de começar a identificar as personas?
Um exercício prático envolve identificar uma experiência traumática, analisar as crenças e comportamentos desenvolvidos em resposta a ela e, em seguida, avaliar como esses comportamentos atuais se opõem aos seus objetivos atuais.






