É muito fácil cair na armadilha de usar nossas intenções ou as intenções de alguém para tentar minimizar o impacto percebido do dano causado, seja porque estamos recebendo esse dano ou porque estamos causando-o. Ao contrário do que se pode pensar, fazer isso pode ser muito prejudicial. Por isso, é importante entender a fundo esse comportamento e por que devemos evitá-lo.
A Importância da Intenção e o Foco no Impacto
Em geral, a intenção importa. Uma das coisas mais cruciais para desenvolver consciência é entender o “porquê” por trás de tudo o que fazemos. Muitas pessoas não têm plena consciência do motivo de suas ações, apesar de esse “porquê” ser uma parte significativa da energia que move o que elas decidem, dizem e fazem. Tudo serve a um propósito, e a intenção por trás de nossas ações é fundamental para nos tornarmos conscientes disso.
No entanto, nem intenções neutras nem positivas anulam o dano causado ou a dor infligida a alguém. Apesar disso, as pessoas frequentemente agem como se anulassem. É comum ouvir justificativas como:
- “Ele ou ela não quis dizer isso de verdade.”
- “Eles não fizeram isso conscientemente.”
- “Eles queriam o melhor para mim.”
- “Eles não fizeram de propósito.”
- “Fizeram o melhor que puderam.”
A necessidade de negar e minimizar o impacto negativo de algo, apontando para a intenção, tem múltiplos motivos:
- Estabelecer Aliança e Segurança Social: Esperamos que, ao focar em nossa intenção positiva, nos estabeleçamos como aliados, e não como adversários. Isso visa reparar a ruptura com a outra pessoa, permitindo-nos sentir socialmente seguros e manter a sensação de união e conexão — elementos vitais para nós como seres humanos.
- Evitar Olhar para o Dano: Usamos a intenção como estratégia para evitar encarar o dano causado, por medo das consequências que essa visão direta poderia trazer e que não estamos dispostos a experimentar.
- Manter Relacionamentos Próximos: Acreditamos que focar na intenção nos permite manter relacionamentos e proximidade com aqueles que nos causaram dano, temendo que reconhecer o impacto possa comprometer esses laços.
- Proteger o Autoconceito: Não conseguimos nos ver como pessoas más ou erradas. Isso representa uma ameaça ao nosso autoconceito. Portanto, precisamos estabelecer uma intenção neutra ou positiva para nos sentirmos bem conosco mesmos.
- Economia de Energia: Não queremos gastar energia criando reparos ou corrigindo erros. É mais fácil simplesmente tentar anular o dano apontando para as intenções por trás dele.
- Defender Terceiros: Gostamos de citar a intenção quando defendemos alguém acusado de causar dano (ou seja, de fazer algo ruim ou errado). Podemos ter muitas razões para fazer isso.
- Justificar Ações: Apontamos a intenção ao justificar o que nós ou outras pessoas dizemos e fazemos.
Intenção Não Anula o Impacto
É fundamental entender que uma intenção neutra ou positiva não anula nem remove o dano causado. Por exemplo, se um pai ou mãe é inconsistente e imprevisível a ponto de não conseguir criar um vínculo seguro com o filho, o dano permanece, independentemente de o pai ter sido ausente intencionalmente ou por causa de padrões subconscientes. O resultado é uma criança que se torna um adulto com problemas de apego, necessitando de terapia e lutando em seus relacionamentos adultos.
Em outro exemplo drástico, se uma pessoa atira e mata outra, o fato de ter sido acidental ou intencional não muda o fato de a pessoa estar morta. O impacto negativo massivo para todos que amavam a vítima persiste.
A pergunta mais importante a se fazer é: o que a intenção muda, se ela não anula o impacto ou o dano?
Em cada situação, é preciso criar o hábito de questionar o que pensamos que a intenção deveria mudar em contraste com o impacto real. Este é o único caminho real para decifrar se a maneira como estamos citando a intenção é saudável ou não. Saber a intenção por trás das palavras ou ações de alguém altera o significado que atribuímos à experiência e a nossa interpretação dela. Ambas as coisas são importantes, e ambas podem nos fazer sentir melhor ou pior sobre o que aconteceu, mudando, consequentemente, o impacto que esses eventos têm sobre nós.
Se uma pessoa mentiu para nós, saber se ela o fez porque estava aterrorizada em perder o relacionamento ao dizer a verdade, ou se ela mentiu para nos manipular a fazer o que quer, muda drasticamente como nos sentimos sobre a situação, sobre a pessoa e até sobre nós mesmos.
O Uso Sombrio da Intenção
Podemos usar a intenção de forma sombria, mantendo-nos inconscientes e disfuncionais. Usar a intenção para minimizar ou negar o impacto é uma resistência em reconhecer o impacto. Recusar-se a reconhecer profundamente o impacto é um mecanismo de esquiva que pode nos colocar em sérios problemas.
Se não olharmos para a realidade, onde o impacto é uma grande parte da situação, não conseguiremos responder ao que é real. Agiremos fora da realidade e seremos incapazes de criar cura para nós mesmos. Ao usar a intenção para negar o impacto, podemos trair a nós mesmos ao defender quem nos machucou contra nossa própria dor. Da mesma forma, podemos defender quem causou o dano contra a pessoa que foi ferida.
O Caso de Jane
Para ilustrar, vejamos o caso de Jane. Ela vem de uma família que enfatizava a necessidade de ser a melhor. Aos 9 anos, foi enviada para um internato para se tornar uma tenista profissional. Isso foi um trauma imenso, mesmo que ela fingisse estar de acordo, pois desejava desesperadamente a aprovação dos pais. A verdade é que ela era muito jovem para estar longe da família, e nenhuma de suas necessidades emocionais foi atendida.
No internato, Jane aprendeu a suprimir emoções, a se apegar a lugares em vez de pessoas, e desenvolveu uma competitividade implacável em todas as áreas da vida. Sentindo-se indesejada e sem valor pelo pai, ela desenvolveu uma obsessão em ser a “menininha do papai”.
Em seus relacionamentos românticos, ela só namorava homens pelo menos 20 anos mais velhos, que eram frios, indiferentes e depreciativos — como seu pai. Ela terminava se sentindo rebaixada e inadequada. Em cada novo relacionamento, ela se mudava para morar com o novo homem, abandonando toda sua vida e amigos, ficando totalmente sozinha com um homem que a desvalorizava. Ela também desenvolveu um transtorno alimentar para lidar com os componentes emocionais dessa dinâmica.
O problema é que Jane se recusa a reconhecer o dano causado. Ela prefere manter a história de que os pais a mandaram para o internato para ajudá-la a perseguir seus sonhos. Ela diz que os pais não sabiam que ela ficaria infeliz, pois achavam que estavam a preparando para a vida. Ela cita: “Não é que meu pai não me amasse. É que, devido aos pais dele, ele nunca soube amar. Então, a forma dele de me mostrar amor era com dinheiro e oportunidades.”
Quando Jane faz isso, não importa se ela está usando verdades ou não. Ela está evitando olhar para a realidade do dano que seus pais lhe causaram e seu impacto duradouro. Ela tenta fazer sua própria dor desaparecer negando-a com a ideia de que os pais tinham boas intenções. Ela também teme nutrir sentimentos negativos por eles, o que criaria mais distância, quando, na verdade, a proximidade com o pai é o que ela mais desesperadamente deseja no mundo.
Jane está se traindo ao defender quem a feriu contra sua própria dor. Ela também está praticando gaslighting consigo mesma, esperando que, se ela não perceber o dano, não sentirá os efeitos. Com tudo isso, ela nunca conseguirá se curar da experiência. Não reconhecerá o que aconteceu nem o que precisa ser feito para obter uma melhora genuína. Ela jamais se tornará consciente da totalidade de seus padrões e não conseguirá mudá-los, nem saberá qual disfunção precisa mudar em seu relacionamento com os pais. Em vez disso, ela permanecerá uma acessória à disfunção familiar.
As intenções importam, mas no contexto desta discussão, elas não importam mais do que o impacto. É o impacto que deve ser abordado. A intenção positiva não se sobrepõe a tudo. Uma boa intenção não minimiza nem apaga o impacto do que você faz. E é por isso que se diz que o caminho para o inferno é pavimentado com boas intenções.
Perguntas Frequentes
- O que acontece quando focamos apenas na intenção em vez do impacto?
Focar apenas na intenção leva à resistência em reconhecer o dano causado, funcionando como um mecanismo de esquiva que impede a cura e o enfrentamento da realidade da situação. - Como a intenção positiva pode ser prejudicial?
A intenção positiva pode ser prejudicial quando usada para negar ou minimizar o impacto real de uma ação, levando à autotraição e à perpetuação de dinâmicas disfuncionais. - Por que as pessoas insistem em focar na intenção?
As pessoas focam na intenção para se sentirem socialmente seguras, para proteger seu autoconceito de serem vistas como más, ou para evitar as consequências de encarar o dano causado. - É possível curar-se se o dano não for reconhecido?
Não. A incapacidade de reconhecer o dano real impede que a pessoa compreenda a totalidade de seus padrões e o que precisa ser feito para obter uma melhoria genuína. - Qual a melhor forma de lidar com ações que causaram dano?
A melhor forma é abordar e encarar o impacto real causado pela ação, pois a intenção, por si só, não anula esse dano.






