As Origens Apagadas do Cristianismo | A Série Cristo 10

As Raízes Antigas das Histórias Bíblicas: Os Mistérios do Mundo Antigo

Ao mergulhar na verdade mais profunda por trás das narrativas bíblicas, frequentemente encontramos elementos que desafiam as compreensões convencionais da fé cristã. Debaixo da história familiar, residem vestígios de algo muito mais antigo, ecos de um mundo que existia milhares de anos antes do surgimento do Cristianismo.

O mundo antigo já era repleto de histórias de seres divinos que nasciam de virgens, realizavam milagres, morriam pelos pecados da humanidade e ressuscitavam. Em outras palavras, Jesus não foi o primeiro.

Muito antes da escrita do Novo Testamento, o Mediterrâneo estava saturado de tradições espirituais conhecidas como os Mistérios. Estas eram as religiões dominantes de sua época, e no cerne delas estava um poderoso arquétipo: o deus que morre e ressuscita.

O Arquétipo do Deus que Morre e Ressuscita

Entre as figuras mais proeminentes estavam:

  • Osíris no Egito;
  • Dionísio na Grécia;
  • Mithras na Pérsia;
  • Atis na Ásia Menor;
  • Asclépio na Grécia;
  • Tamuz na Mesopotâmia;
  • Adônis na Síria;
  • Sarapis no Egito Helenístico.

Por milhares de anos, essas figuras foram reverenciadas não apenas como divindades, mas também como símbolos da jornada da alma humana através da transformação e do esclarecimento.

Os Mistérios não eram como as religiões de massa de hoje. O coração dessas tradições era uma cultura que oferecia aos iniciados uma conexão pessoal e direta com o divino dentro deles.

O que é curioso é que as histórias desses “homens-deus” seguiam padrões notavelmente semelhantes. Eles frequentemente nasciam de virgens, realizavam milagres, sofriam mortes sacrificiais e eram ressuscitados para oferecer salvação aos seus seguidores. Além disso, cada um era considerado por seus seguidores como o filho de Deus.

Para essas tradições, esses mitos não deveriam ser interpretados como história literal, mas sim como alegorias contendo profundos ensinamentos espirituais.

Rituais e Transformação

Os iniciados participavam de cerimônias elaboradas, que incluíam ritos de purificação, refeições simbólicas e encenações dramáticas da morte e ressurreição do deus. Esses rituais tinham como objetivo guiar os participantes através de uma experiência transformadora, oferecendo-lhes renascimento espiritual e um vislumbre da imortalidade.

A sabedoria central era que, ao seguir a história significativa da morte e ressurreição de sua divindade, o indivíduo passaria pelo mesmo processo: a morte do ego e o renascimento na incorporação da luz de sua alma.

Um dos exemplos mais famosos é a história de Osíris, o deus egípcio assassinado por seu irmão Set, desmembrado, e depois remontado e ressuscitado. Osíris mais tarde foi morto pela segunda vez e se tornou o governante do submundo, um símbolo da vida eterna. Sua história era encenada em rituais que simbolizavam a morte e o renascimento do iniciado.

A codificação no mito era a ideia de que o desmembramento de Osíris refletia como cada um de nós se tornou fragmentado de nossa unidade interior. Ser reunido era o processo de retornar à totalidade, literalmente lembrando quem somos. Após morrer pela segunda vez, Osíris, enquanto estava no submundo, realizou uma cerimônia com Ísis, sua esposa que ainda estava em corpo físico, e ela concebeu o filho deles, Hórus. Este é o primeiro relato de nascimento virginal na história, milhares de anos antes de Jesus.

De forma semelhante, nos Mistérios Gregos de Dionísio, o deus era despedaçado e renascido, representando a natureza cíclica da vida e o potencial para a renovação espiritual. Nos Mistérios Persas de Mithras, os iniciados passavam por uma série de provações e batismos simbólicos para limpar seus pecados e alcançar o esclarecimento espiritual.

Correspondências com a Narrativa de Jesus

Ao considerarmos a revelação histórica em contraste com o que se conhece sobre Jesus Cristo, encontramos correspondências consistentes em todos os aspectos de seus traços de caráter, o que sugere que a história de Yeshua não é original.

Os feitos de Jesus, como o nascimento anunciado por uma estrela, a transformação de água em vinho, a cura dos doentes e a ressurreição dos mortos, eram maravilhas anteriormente atribuídas a figuras como Dionísio e Asclépio.

O conceito da Última Ceia, onde Jesus oferece pão e vinho como símbolos de seu corpo e sangue, também ecoa os rituais dos Mistérios, onde os participantes compartilhavam uma refeição simbólica para comungar com o filho de Deus. Nos Mistérios Eleusinos da Grécia, os iniciados consumiam uma poção de cevada e hortelã, simbolizando o corpo da deusa Deméter. Nos Mistérios de Mitra, pão e vinho eram consagrados e consumidos em um ritual que se assemelha muito à Eucaristia cristã.

O batismo também tem suas raízes nos Mistérios. No Cristianismo, é um rito de purificação e iniciação que simboliza a lavagem dos pecados e o início de uma nova vida espiritual. Nos Mistérios de Mithras e nos Mistérios Egípcios de Ísis e Osíris, os iniciados passavam por limpezas rituais com água para se prepararem para suas jornadas espirituais. Esses batismos frequentemente incluíam elementos simbólicos, como a aspersão de água benta ou a imersão total, representando morte e renascimento.

Influências Filosóficas e Cosmológicas

Paralelos são encontrados até mesmo nos ensinamentos de Jesus; muitas das ideias atribuídas a ele têm origens mais antigas, remontando a centenas ou milhares de anos.

A ideia de união com o divino era central nos ensinamentos de Pitágoras e Platão, ambos iniciados nos Mistérios. O conceito do Logos era prevalente na Grécia por séculos antes de Cristo, especialmente nas obras de Heráclito e posteriormente refinado pelos filósofos estóicos. Temas de encarnação divina também podem ser encontrados em Krishna, em Shiaoant e em Hórus. A ênfase no reino interior, na autorrealização e na salvação através do conhecimento tem raízes profundas nas tradições herméticas e outras tradições que antecederam em muito o Cristianismo.

A Origem das Histórias: O Sol e o Zodíaco

A grande questão é: de onde vêm todas essas histórias?

O tema unificador dessas narrativas parece derivar da compreensão do mundo antigo sobre os céus. Muito antes do Cristianismo, as civilizações reconheciam o Sol como o doador da vida, a fonte de calor, luz e sustento.

Desde 10.000 a.C., as culturas gravavam símbolos solares em pedra, retratando o papel vital do Sol em sua existência. Elas antropomorfizaram o Sol, criando mitos que alinhavam seus movimentos com a experiência humana de nascimento, morte e renascimento.

O Zodíaco, um dos mais antigos arcabouços conceituais da história humana, forneceu um cenário celestial para esses mitos. À medida que o Sol se movia pelo céu ao longo de um ano, parecia passar por 12 constelações. Essas constelações, conhecidas como Zodíaco, eram vistas como marcadores cósmicos da jornada do Sol, representando diferentes fases da vida, transições sazonais e transformação espiritual.

Os 12 signos foram personificados como divindades, cada um incorporando as qualidades do período em que governavam. Aquário, o portador da água, representava as rédeas da vida da primavera, enquanto Leão, o leão, simbolizava o auge do poder do verão.

Como o Sol era o sustentador da vida, era frequentemente retratado como uma figura divina, o filho de Deus em muitas tradições. No Egito, essa figura era Hórus, a divindade solar que nasceu de uma virgem, marcada por uma estrela no leste e seguida por três reis. Seu adversário era Set, a personificação da noite e da escuridão, que ele vencia todas as manhãs, apenas para ser dominado novamente todas as noites. Este ciclo de luta e renascimento espelhou o movimento do Sol, um tema que se repetiu em inúmeras tradições.

Cada uma dessas figuras é um arquétipo do ciclo solar, incorporando sua jornada através do zodíaco e sua morte e renascimento anuais no solstício de inverno.

A narrativa de Jesus se encaixa perfeitamente nessa antiga alegoria solar:

  • A estrela no leste que anuncia seu nascimento é Sírius, a estrela mais brilhante do céu noturno, que em 24 de dezembro, juntamente com as três estrelas do Cinturão de Órion (conhecidas como os três reis), aponta diretamente para o local do nascer do sol em 25 de dezembro, data do nascimento de Cristo.
  • A constelação Virgem (Virgo em latim) se alinha com este evento, reforçando a alegoria do nascimento virginal.
  • Belém se traduz como “Casa do Pão”, uma referência clara a Virgem, cujo símbolo é uma donzela segurando uma espiga de trigo.

O padrão continua com a morte e ressurreição de Cristo. Todos os anos, o Sol atinge seu ponto mais baixo no céu em 22 de dezembro, permanecendo imóvel por três dias antes de iniciar sua ascensão novamente em 25 de dezembro. Essa morte e ressurreição do Sol se tornaram a base para os mitos de deuses que morrem e ressuscitam.

Os 12 discípulos de Cristo correspondem aos 12 signos do zodíaco, assim como Mitra tinha 12 companheiros e Hórus tinha 12 seguidores.

Alexandria: O Cadinho das Ideias

A cidade de Alexandria, fundada por Alexandre, o Grande, no século IV a.C., tornou-se um dos mais notáveis cadinhos culturais do mundo antigo. Ali, as tradições intelectuais da Grécia, os ritos místicos do Egito e as convicções religiosas do Judaísmo se encontraram em uma fusão de ideias sem paralelo.

Ao contrário do mundo mais isolado da Judeia, Alexandria era uma cidade onde culturas colidiam, misturavam-se e davam origem a novos movimentos espirituais. A comunidade judaica em Alexandria era vasta, e muitos judeus mais jovens se sentiam atraídos pelo mundo sofisticado da cultura helenística.

O maior tesouro da cidade era a lendária Biblioteca de Alexandria, que abrigava centenas de milhares de rolos e buscava coletar todo o conhecimento do mundo antigo. Foi neste ambiente que os textos das escrituras judaicas foram traduzidos para o grego (a Septuaginta), um trabalho que sutilmente infundiu as crenças hebraicas com ideias platônicas e estoicas.

Uma figura central nessa fusão foi Fílon de Alexandria, um filósofo judeu que buscou conciliar a Torá com a filosofia grega. Fílon abraçou a ideia de que as escrituras judaicas poderiam ser lidas alegoricamente, identificando Yahweh com o conceito platônico do Uno e equiparando Moisés a Hermes Trismegisto, o lendário fundador do misticismo egípcio. Ele lançou as bases para uma interpretação mística do Judaísmo que influenciaria o pensamento gnóstico e o pensamento cristão ortodoxo posterior.

Os Essênios e os Therapeutas

Entre os judeus de Alexandria, um novo grupo estava se formando: os Therapeutas, que viviam uma vida monástica perto do Lago Mareotis. Eles praticavam uma forma de Judaísmo ascético que apresentava semelhanças marcantes com as tradições dos Mistérios. Fílon descreveu-os como iniciados nos mistérios da vida santificada.

Outro grupo com conexões semelhantes eram os Essênios, um grupo ascético que compartilhava muitas semelhanças com as escolas de mistério e os movimentos cristãos posteriores. Sua ênfase no batismo, nas visões angélicas e em uma visão de mundo apocalíptica é notavelmente semelhante aos temas cristãos primitivos.

Em Alexandria, a ideia de uma religião de mistério judaica não era impensável; era inevitável. O Judaísmo já estava se fundindo com as tradições de mistério, as alegorias filosóficas de Platão e as especulações cósmicas do Estoicismo. Para os jovens judeus de Alexandria, os Mistérios não eram um conceito estranho, mas parte de suas vidas.

Foi neste mundo que o Cristianismo, como o conhecemos hoje, começou a tomar forma, especialmente através de uma forma de teologia que existia naqueles primeiros dias, o Gnosticismo.

Perguntas Frequentes

  • O que eram os Mistérios no mundo antigo?
    Eram tradições espirituais e religiões dominantes na região do Mediterrâneo, centradas no arquétipo do deus que morre e ressuscita, oferecendo aos iniciados uma conexão pessoal com o divino através de rituais.
  • Como a alegoria solar se relaciona com Jesus?
    A narrativa de Jesus compartilha características com o ciclo solar anual, como um nascimento associado a uma estrela (Sirius) e uma “morte e ressurreição” que espelha a queda e ascensão do Sol após o solstício de inverno.
  • Qual a importância da cidade de Alexandria?
    Alexandria foi um caldeirão cultural onde o Judaísmo se encontrou com a filosofia grega (Platão, Estoicismo) e os mistérios egípcios, influenciando a forma como as escrituras judaicas foram interpretadas e moldando as bases do Cristianismo primitivo.
  • É possível que existissem outros deuses solares com histórias semelhantes antes de Jesus?
    Sim, a existência de figuras como Osíris, Dionísio e Hórus, com narrativas de nascimento virginal, milagres e ressurreição, é documentada milhares de anos antes do Cristianismo.
  • Como a figura de Fílon de Alexandria influenciou o pensamento religioso?
    Fílon buscou conciliar a Torá com a filosofia grega, lendo as escrituras judaicas alegoricamente e ligando conceitos judaicos a divindades gregas e herméticas, pavimentando o caminho para interpretações místicas e Gnósticas.