O Mundo Já Está em Guerra

A Guerra Silenciosa: Entendendo o Conflito Além da Violência Física

Em resposta a eventos globais intensificados, é comum ouvir discussões sobre o risco de uma Terceira Guerra Mundial. Muitas vezes, a sensação é de que a humanidade está em suspense, à espera de um desfecho violento. No entanto, a realidade é frequentemente muito diferente do que se percebe. O fato é que o mundo já está em guerra, mas a vasta maioria das pessoas sequer tem consciência disso.

Isso levanta um questionamento fundamental: como alguém pode estar em uma guerra mundial sem saber? Este artigo visa explicar essa dinâmica, trazendo clareza sobre o cenário atual.

A Definição Convencional de Guerra

Se pedíssemos exemplos visuais de guerra, a maioria pensaria imediatamente em canhões sendo disparados, confrontos com espadas, bombas caindo, baionetas, sequestros, explosões de edifícios por ataques aéreos ou tortura em campos de concentração. O elemento comum nessas imagens é a violência física.

Por séculos, nossa percepção de guerra foi moldada por essa visão física. Contudo, isso não significa que a violência física seja a única forma que a guerra assume ou que sempre será assim. Essa visão enviesada é compreensível, dada a nossa herança de séculos de conflitos baseados na agressão física.

Para realmente compreender a guerra moderna, é útil fazer um exercício mental, trocando a lente pela qual enxergamos o conflito.

Guerra Como Conflito de Interesses

Na sua raiz, a guerra é um conflito. É um estado em que políticos, organizações e cidadãos decidem que entrar em confronto é justificável, apesar das potenciais consequências negativas, devido a alguma motivação específica. Todos os envolvidos operam a partir de suas razões motivadoras.

Outra forma de ver isso é que os conflitos são iniciados com o objetivo de alcançar um resultado favorável ou um estado de coisas desejado. No contexto de uma guerra, esse resultado desejado está em oposição aos melhores interesses percebidos por outra parte.

Quando isso ocorre, ambas as partes se armam uma contra a outra. De maneira simplificada, isso significa que elas utilizam ferramentas para aumentar seu poder e concretizar seus interesses percebidos como os melhores – pense em armas.

O Arsenal da Guerra Não-Física

Para este exercício de compreensão, é preciso deixar de lado a resistência à ideia de que a guerra pode assumir outras formas e tentar pensar como alguém que decidiu que o conflito é necessário hoje em dia. Quais seriam as estratégias e as armas mais eficazes na era atual?

As táticas e armas mais eficazes hoje vão muito além de marchas em formação ou bombardeios atômicos. A violência física é apenas uma das ferramentas disponíveis, e muitas vezes não é a mais inteligente ou eficaz. Existem maneiras muito mais sofisticadas de conduzir a guerra.

Abaixo, apresentamos uma lista parcial das armas e táticas usadas na guerra da nossa nova era:

  • Ataques Cibernéticos: Interrupção de infraestrutura crítica e invasão de informações para prejudicar o lado adversário.
  • Campanhas de Desinformação: Instigar o medo público e disseminar mentiras para manipular a opinião pública e minar a confiança dos cidadãos, apoiando os objetivos de quem ataca.
  • Criação de Crises Públicas: Criar problemas e, em seguida, atribuí-los a outro ator, apresentando-se como o salvador da crise criada. Isso gera medo e faz com que as pessoas entreguem sua confiança, lealdade e poder, permitindo ações que, em tempos normais, seriam rejeitadas.
  • Sanções Econômicas: Aplicação de pressão econômica intensa para forçar o cumprimento de demandas.
  • Restrição e Bloqueio de Viagens.
  • Inundação de Mensagens Mistas: Bombardear o público com informações conflitantes, causando dissonância cognitiva, o que deixa as pessoas ansiosas, desorientadas e confusas. Essa confusão pode ser explorada para polarizar ou oferecer uma “solução” que sirva aos objetivos do agressor.
  • Uso Inteligente de Inteligência Artificial (IA).
  • Interferência e Fraude Eleitoral.
  • Subversão Política: Minar a confiança, autoridade, estabilidade ou legitimidade de um governo ou políticos de forma encoberta, o que é uma tática de risco muito menor do que uma revolução aberta.
  • Suporte (e desvalorização) de Criptomoedas.
  • Distração: Uso de plataformas de informação para desviar a atenção pública para um assunto específico, permitindo que ações controversas sejam realizadas sem que o público perceba.
  • Forçar Conformidade de Plataformas de Mídia Social: Visto que essas plataformas controlam o discurso público atual.
  • Uso de Satélites e suas diversas aplicações estratégicas.
  • Manipulação da Imprensa: Ameaçar, infiltrar, coagir, comprar ou corromper a mídia.
  • Armamento Biológico, Fome e Privação de Recursos Específicos: Táticas que podem ser convenientemente disfarçadas de eventos naturais, dificultando a atribuição das consequências ao agressor.
  • Influência, Suborno e Ameaça a Tomadores de Decisão: Persuadir ou coagir políticos, celebridades e outros influenciadores de decisões governamentais, leis e opinião pública.
  • Criação e Fomento de Divisões Ideológicas e Inflamação do Patriotismo.
  • Assassinato e Remoção de Figuras Proeminentes que se opõem aos objetivos.
  • Deportação de indivíduos que não se alinham com os objetivos.
  • Criação de Dependência: Tornar a população dependente do que é fornecido, permitindo o controle total através da possibilidade de reter ou conceder necessidades básicas.
  • Guerra Secreta (Covert War): Utilização de espionagem e operações psicológicas para influenciar populações-alvo, ocultar identidades e negar responsabilidade, usando táticas exclusivas de operações encobertas.
  • Incitamento ao Nacionalismo.
  • Suborno e Uso de Organizações Terroristas: Utilizar grupos para conduzir operações que sirvam aos interesses, mas que sejam difíceis de serem diretamente atribuídas ou retaliadas.
  • Táticas Militares Tradicionais.

O Contexto da Guerra Moderna

É crucial entender que o conhecimento público sobre a existência de uma guerra é apenas uma das jogadas estratégicas. Em eras passadas, quando líderes necessitavam de números para superar o adversário fisicamente, a declaração de guerra e o alistamento eram essenciais. A guerra, antigamente, era vista como uma forma nobre de um homem obter estima social.

Hoje, a reputação da guerra está arruinada, e ela não goza mais do apoio que tinha. Portanto, pode ser uma estratégia mais inteligente não informar o público sobre o estado de guerra, chegando até a manipular a percepção para que tudo pareça estar sob controle.

Pode ser também uma estratégia alimentar uma guerra ideológica contra a masculinidade, garantindo que não haja homens dispostos a se levantar e lutar contra quem está no comando.

A Manifestação da Guerra Atual

Muitas pessoas estão na expectativa de uma declaração formal de guerra ou da escalada de violência física, como uma Terceira Guerra Mundial. No entanto, a verdadeira natureza do início de um conflito geralmente só fica clara em retrospecto, ao analisarmos os eventos definidores e as reações em cadeia que eles causaram.

A guerra do nosso mundo atual se apresenta, na superfície, como um emaranhado confuso de policrise, utilizando todos os instrumentos disponíveis para que qualquer parte envolvida ganhe poder. O que ela realmente é, contudo, é o uso sofisticado de uma miríade de armas psicológicas, emocionais, físicas e sociais empregadas por todas as partes engajadas. Essa guerra assume formas diferentes para se adequar ao objetivo do momento.

Grande parte desse conflito ocorre “nos bastidores”, longe dos olhos do público. Isso significa que a violência física, como o lançamento de uma única bomba, só ocorrerá se for a melhor estratégia para alguém atingir seu objetivo naquele momento específico.

Em vez de todos os países estarem envolvidos em violência física direta, observamos erupções de conflito físico em áreas isoladas, dando a impressão de que a guerra está confinada ali. Estes são, na verdade, guerras por procuração (proxy wars) dentro de um xadrez global multiplayer, onde as táticas mudam rápida e constantemente.

Navegar neste cenário é extremamente difícil, pois as alianças geopolíticas mudam constantemente. As pessoas estão exaustas, sobrecarregadas e sentem que nada é seguro.

Sintomas da Guerra Silenciosa

Pessoas que viveram guerras passadas reconheceram alguns elementos desta guerra, mas não outros. Nunca enfrentamos uma situação como esta, e, por isso, não há um “manual de regras”. O objetivo não é causar pânico, mas sim aliviar a pressão de saber perfeitamente o que fazer em tal paisagem. A confusão e a paralisia decisória são respostas normais.

Reconhecer o quadro geral ajuda. A guerra moderna não é um sinal de que a humanidade “evoluiu além” da violência física. Pelo contrário, é um sinal de uma séria falta de consciência ou inteligência básica se pensarmos que a violência física é a pior forma que a guerra pode assumir. A guerra de hoje é simplesmente muito mais sofisticada e eficaz do que era antes, e muitas de suas táticas são bem mais abusivas.

Um dos aspectos mais tristes é que as pessoas não entendem a origem de seus sentimentos. Sabemos que tempo de guerra é horrível, mas quando se sabe que o mundo está em conflito, os sintomas emocionais fazem sentido. Nesta guerra, os sintomas estão presentes, mas as pessoas não acreditam que algo esteja acontecendo.

Exemplos disso incluem:

  • Perda de Esperança no Futuro: Muitas pessoas acreditam que não podem alcançar seus objetivos, o que leva à dificuldade em planejar o futuro.
  • Sensação de Inquietação e Irrealidade: Sentimentos intensos de pavor e dormência.
  • Nacionalismo Crescente: As pessoas sucumbem ao pensamento de “nós contra eles”.
  • Vigilância e Censura Digital Intensificadas: Justificadas em nome da segurança nacional ou saúde pública.
  • Medo de Autoridades: O temor de governos e pessoas no poder é generalizado.
  • Inflação Financeira e Desestímulo à Prole: Crises econômicas levam pessoas em idade fértil a decidirem não ter filhos.
  • Disrupção das Cadeias de Suprimentos.
  • Estresse Elevado: As pessoas ficam sob tanto estresse que duvidam que a vida já tenha sido mais fácil.
  • Distorção da Realidade: Sentimento de que o perigo está em toda parte e que o mundo se tornou distópico. Conversas sobre colapso e apocalipse são comuns, levando ao acúmulo de suprimentos e ao desejo de viver “fora da rede”.
  • Exaustão Informacional: Necessidade de limitar o consumo de notícias devido ao conteúdo negativo.
  • Militarização da Polícia e Perda de Direitos.
  • Tensão Global Localizada: Tensões globais se tornam locais, e tensões locais ganham escala global.
  • Armas Econômicas: Comida, energia e dinheiro sendo usados como armas.
  • Movimentos Radicais e Medo de Perseguição: Pessoas temem que sua identidade (religião, política, raça, orientação sexual) possa torná-las inimigas do Estado.

Ao analisar essas guerras isoladas, percebe-se que todas estão interconectadas, quebrando as fronteiras entre conflitos locais e globais, como ocorre em toda guerra mundial, atraindo nações e alianças para uma luta maior por dominação e sobrevivência.

É essencial olhar além da experiência pessoal limitada. As emoções sentidas estão alinhadas com o tempo de guerra, mas a ausência de uma declaração formal faz com que a realidade pareça ilógica.

Ao ter acesso a esta visão mais ampla, a confusão e o sentimento de que algo está errado consigo mesmo por não entender o que está acontecendo tendem a diminuir.

Perguntas Frequentes

  • O que caracteriza a guerra moderna?
    A guerra moderna é caracterizada pelo uso sofisticado de armas psicológicas, emocionais, físicas e sociais, muitas vezes conduzida de forma encoberta e com táticas que não envolvem violência física direta.
  • Como a desinformação é usada como arma de guerra?
    A desinformação é usada para instigar o medo público, espalhar mentiras, manipular a opinião pública e minar a confiança dos cidadãos nas instituições para favorecer os objetivos de uma das partes em conflito.
  • Por que as pessoas não percebem que estão em guerra?
    Isso ocorre porque a guerra atual se manifesta de maneiras não convencionais e muitas táticas são executadas “por trás das cortinas”, sem uma declaração formal que chame a atenção para o conflito.
  • É possível que a violência física seja a melhor estratégia hoje?
    A violência física ainda é uma ferramenta disponível, mas só é utilizada se for considerada a melhor tática para atingir um objetivo específico em um dado momento, sendo muitas vezes preterida por estratégias mais eficazes.
  • Qual a melhor forma de lidar com a confusão atual?
    A melhor forma é reconhecer o cenário maior de conflito global em múltiplas frentes, o que ajuda a normalizar as sensações de estresse, ansiedade e confusão vivenciadas.