Meditação não é o que você pensa

A Estrutura da Mente Humana e o Propósito Real da Meditação

A meditação é frequentemente mal compreendida. Muitos acreditam que seu único propósito é acalmar a mente, mas isso é apenas o benefício menos importante. Na verdade, o que envolve a prática meditativa é muito mais profundo do que a maioria das pessoas imagina.

A História de Robert Monroe e a Natureza da Mente

Para entender melhor a profundidade do tema, vale a pena considerar a trajetória de Robert Monroe. Biografias superficiais o descrevem como um executivo de rádio que investigava os efeitos de padrões sonoros no cérebro e na aprendizagem durante o sono. Ele também explorou estados de consciência fora do corpo, culminando na formação do Monroe Institute.

No entanto, essa descrição ignora o vasto conhecimento que ele adquiriu. Monroe descobriu muito mais sobre a natureza do universo do que a ciência moderna poderia oferecer. Seus escritos sobre experiências fora do corpo são notáveis, descrevendo um mapeamento completo de um “outro mundo”, o que o torna comparável a um Marco Polo do mundo não físico. Enquanto exploramos terras e oceanos, Monroe mapeou as dimensões da consciência.

Em sua obra, Ultimate Journey, Monroe detalha um mapeamento da mente humana observado a partir de uma compreensão mais consciente. Ele afirma:

Como mentes humanas, nós somos o que pensamos. Somos também o que os outros pensam. A maior parte disso tem pouca relação com nossos corpos físicos quando vamos abaixo da superfície.

Para lidar com essa realidade, é útil criar um modelo pragmático da mente humana, estruturado em camadas, como uma cebola, trabalhando de dentro para fora.

O Modelo em Camadas da Mente Humana

O modelo proposto organiza a mente em cinco camadas principais, partindo do núcleo:

1. O Núcleo (Core Self)

Este é o eu original, a soma de todas as nossas experiências sem limitação. É composto pelo que vivemos e pensamos conscientemente até o momento, incluindo emoções, sonhos, dores, prazeres, devaneios e esperanças. Este é o nosso espírito, quem realmente somos.

2. O Sub-eu Animal (Animal Subself)

Localizado acima do núcleo, este é o estrato mais difícil de controlar. É onde ocorre a filtragem, descoloração e contaminação de nossas experiências. Muitas vezes, acreditamos precisar depender dele para permanecer fisicamente humanos. Fisiologicamente, ele corresponde ao conjunto formado pelo cérebro mamífero e o sistema límbico.

3. A Mente Consciente (Conscious Mind)

Esta camada representa o que você *pensa* que é. Ela difere fundamentalmente do *saber* o que você é. A razão para essa distinção é que apenas uma porção do núcleo está acessível à mente consciente. Por isso, há grande distorção na expressão, pois a informação precisa atravessar o sub-eu animal. Embora a mente consciente possa ser precisa em algumas áreas, outras podem gerar interpretações opostas às do núcleo.

Uma parte considerável dessa camada é expressa no nosso “eu exterior”, muitas vezes influenciada por sistemas de crenças, transformando-se em um labirinto para muitos, dificultando encontrar uma saída clara.

4. A Mente Humana Externa (Human Mind External)

Esta camada trata do que pensamos que os outros pensam de nós. É uma mistura complexa, parcialmente formada por comunicação intuitiva e não verbal, que frequentemente se confunde com a percepção sensorial e analítica. Ela muda constantemente com novas experiências e percepções e é fortemente controlada pelo contexto cultural.

Nesta camada, desenvolvemos impulsos e motivações artificiais e sintéticas que, na maioria das vezes, levam à disfunção física e mental. Em vez de ser autêntico, o indivíduo adota uma existência totalmente reativa, o que pode se tornar um “inferno em vida” se permitido dominar.

5. O Papel Humano (Human Mind Role)

A camada mais externa, surpreendentemente maior do que se poderia esperar, é composta pelos pensamentos dos outros sobre nós. Você existe onde e quando outro ser pensa em você, vivendo através de memórias alheias. Ao criar essas memórias, os outros se conectam com você e realmente existem ao seu redor. É por isso que as percepções alheias raramente têm consciência do seu núcleo interior; a dissimulação e a filtragem estão no caminho. Muitas pessoas têm dificuldade em se conectar com seu núcleo ou espírito, sem sequer saber que ele existe.

O Verdadeiro Propósito da Meditação

Após mapear a estrutura mental, surge a grande questão: qual o ponto da meditação?

Visões ocidentais populares sugerem que a meditação é boa para reduzir a pressão arterial, aliviar a depressão, diminuir o colesterol e promover mudanças físicas no cérebro. Contudo, no sentido tradicional budista, todas as formas de meditação convergem para um único resultado final: iluminação espiritual, que traz a eliminação do sofrimento.

Essa eliminação ocorre através da compreensão da consciência de unidade, percebendo a interconexão de todas as coisas. O objetivo não é eliminar o sofrimento reduzindo sua causa física (como melhorar a saúde), mas sim mudar a importância que damos a esse desconforto.

A meditação ensina a desviar a atenção das experiências físicas e pessoais mundanas, onde os problemas parecem cruciais, para experimentar a vida através de uma perspectiva mais ampla e interconectada, tornando-se um com tudo. Esse processo altera nosso senso de identidade, fazendo com que os problemas pareçam menos significativos e perturbadores.

Retomando a ideia inicial: “Penso, logo não sou. Somente quando a mente está silenciosa, eu sou.” Quando a mente silencia, é possível conectar-se plenamente com o núcleo, o espírito, transcendendo a mente consciente e o sub-eu animal, e habitar o estado do “Eu Sou”.

Prática de Meditação: A técnica de silenciamento da mente

Para alcançar esse estado de silêncio e conexão, apresentamos uma técnica básica que pode ser praticada diariamente.

Para começar, vista roupas confortáveis e escolha sentar ou deitar em uma posição relaxada.

Os passos são os seguintes:

  1. Relaxamento Corporal: Foque individualmente em cada parte do seu corpo. Comece pelos pés, depois pernas, coxas, e continue até o topo da cabeça. Dedique cerca de 10 a 20 segundos a cada parte, concentrando-se apenas em relaxá-las.
  2. Contagem Regressiva: Depois de relaxar todo o corpo, comece a contar mentalmente de 100 até zero, com calma. Não há pressa.
  3. Ignorar Pensamentos Distrativos: Se pensamentos dispersos surgirem, simplesmente ignore-os e continue a contagem.
  4. Reinício da Contagem: Ao chegar a zero, reinicie a contagem de 30 até zero novamente.
  5. Permanência no Silêncio: Após completar a segunda contagem, permaneça na aura de silêncio que você criou. Neste ponto, sua mente deve estar em paz, e você pode ter uma experiência. Não espere nada; apenas permita que o que acontecer, aconteça. Esteja no “Eu Sou”.

Você saberá quando finalizar a sessão. Recomenda-se praticar diariamente, mesmo que por 10 minutos à noite, para quem leva a prática a sério. A duração e frequência são totalmente decididas por você.

Usando Binaural Beats

Outra ferramenta auxiliar são os binaural beats, desenvolvidos originalmente por Robert Monroe no Monroe Institute, com o objetivo de induzir estados alterados de consciência e experiências fora do corpo.

Essas faixas de áudio funcionam apresentando um tom ligeiramente diferente em cada ouvido. Essa diferença de frequência cria um terceiro tom percebido internamente, alterando efetivamente a frequência cerebral e colocando você em um estado mental distinto.

Existem marcas notáveis no mercado:

  • Hemisync (Monroe Institute): É a tecnologia proprietária de batidas binaurais do Instituto Monroe, considerada profissional, oferecendo meditações guiadas e de fluxo livre para atingir diferentes estados.
  • Idozer: Uma empresa separada que foca menos em meditações guiadas e mais nos efeitos das faixas de áudio. Eles oferecem diversas trilhas para induzir variados estados mentais, como efeitos de LSD, estimulação de chakras e projeção astral, sendo por vezes referidos como “drogas digitais”.

É importante notar que, para que essas ferramentas funcionem plenamente, é necessário ter habilidade em meditar profundamente. Se um iniciante tentar usar os tons sem experiência meditativa, o efeito será limitado. É crucial aprender a meditar por conta própria e atingir um estado meditativo profundo antes de incorporar batidas binaurais.

Para quem está realmente comprometido com a meditação, a melhor recomendação é participar de uma aula. A orientação pessoal de um instrutor treinado e experiente acelera o progresso exponencialmente, permitindo que você atinja níveis mais elevados rapidamente.

Perguntas Frequentes

  • O que é o “Core Self”?
    É a essência original do ser humano, a soma de todas as experiências vividas e pensadas, sem as limitações e filtros das camadas externas da mente.
  • Como os binaural beats funcionam?
    Eles usam tons ligeiramente diferentes em cada ouvido para criar um terceiro tom percebido no cérebro, o que tem o efeito de mudar a frequência cerebral para um estado mental desejado.
  • Por que a meditação tradicional foca na iluminação espiritual e não na saúde física?
    O objetivo tradicional é eliminar o sofrimento mudando a perspectiva sobre os problemas, alcançando a consciência de unidade, em vez de apenas mitigar os sintomas físicos do desconforto.
  • Qual é a principal dificuldade com a Mente Consciente?
    Ela recebe informações filtradas pelo Sub-eu Animal, resultando em distorção e, por vezes, interpretando informações do Núcleo de maneira oposta.
  • É possível meditar sem a ajuda de áudios como os binaural beats?
    Sim, é altamente recomendado aprender a meditar sozinho para desenvolver a capacidade de entrar em estados profundos antes de usar ferramentas sonoras para intensificar a experiência.