Ritos de Passagem Femininos com Anna Lundqvist A Espiritual Midwife

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A jornada de autoconhecimento e espiritualidade é profundamente conectada com as experiências femininas, especialmente os ritos de passagem. Neste artigo, exploramos como a espiritualidade moldou uma trajetória fascinante, culminando na prática da obstetrícia, e como esses ritos são essenciais para a compreensão do poder feminino na sociedade moderna.

A Jornada Pessoal: Sensibilidade e Busca Espiritual

Desde muito jovem, a experiência de vida foi marcada por uma sensibilidade extrema. A percepção aguçada e uma intuição forte faziam com que se sentisse deslocada, capaz de perceber a verdade nas entrelinhas das interações sociais, o que nem sempre era popular entre adultos e crianças. Essa fase inicial foi descrita como uma espécie de “Noite Escura da Alma”, onde a busca por um lugar de pertencimento era constante, especialmente em ambientes escolares e sociais.

Ainda na infância, um evento marcante foi a conexão com uma mulher que se identificava como xamã e bruxa, introduzida pelo pai, uma figura que parecia distante da espiritualidade. Aos 14 anos, participar de um círculo de mulheres liderado por essa figura foi um divisor de águas. Seguiu-se uma década de imersão em diversas práticas espirituais e de cura, incluindo:

  • Leitura de Tarô
  • Canalização
  • Cura Xamânica
  • Estudo de fitoterapia (ervas, tinturas e chás)
  • Ayurveda e Medicina Chinesa
  • Terapias de massagem

Essa fase foi um “smörgåsbord” de conhecimentos. Posteriormente, houve uma incursão pelo trabalho social e direitos humanos na universidade, impulsionada por uma paixão profunda por direitos humanos, direitos das mulheres e das minorias. Contudo, a exposição contínua à escuridão do mundo levou a um esgotamento intenso aos 21 ou 22 anos, um “choque de realidade” precoce.

A necessidade de servir ao próximo, característica de seu signo de Virgem e do tipo Gerador no Human Design, era uma fonte de alegria e propósito. No entanto, foi preciso aprender a focar no que realmente a energizava para evitar o esgotamento, como a astrologia e o Human Design ensinam.

Após viajar pelo mundo, incluindo um período de 15 anos entre a Austrália, e adquirir conhecimento como professora de Kundalini Yoga e em tradições de Tantra Yoga, o caminho se direcionou para a obstetrícia aos 29 anos, na Austrália. A decisão veio após um período significativo trabalhando com círculos e jornadas femininas, focando na redescoberta da feminilidade, sexualidade e na cura da “ferida da irmandade”.

Os Ritos de Passagem Femininos

A importância dos ritos de passagem é central na jornada da mulher, ocorrendo quer estejamos cientes deles ou não. Esses ritos nos ensinam sobre o que significa ser mulher em nossa cultura.

O Primeiro Rito: A Primeira Menstruação

O primeiro grande rito é a menarca (primeiro sangramento). A experiência compartilhada revelou um contraste significativo: enquanto amigas celebravam o início da feminilidade, a reação familiar foi de silêncio e neutralidade, transmitindo a mensagem de que a menstruação era algo vergonhoso, sujo, a ser escondido, e que era esperado que viesse acompanhada de dor e desconforto.

A falta de cerimônia ou celebração marcando a transição para a mulher foi notada. Em contraste, a narrativa cultural imposta sugere que a menstruação é um evento negativo, reforçado por comentários depreciativos sobre emoções (“Você está de TPM?”). A contracepção hormonal, inclusive, foi utilizada para suprimir esse ciclo, com graves efeitos colaterais, como piora das ideações suicidas.

O sangue menstrual é visto como uma conexão com a ancestralidade e a consciência coletiva. A supressão desse ciclo, ao impedir que as mulheres vivenciem plenamente essa fase, interfere na capacidade de conhecer suas próprias necessidades femininas e advogar por si mesmas.

O Segundo Rito: O Nascimento

O segundo rito, o nascimento, é igualmente gerenciado e controlado pela sociedade moderna. As mulheres grávidas são frequentemente infantilizadas, e o sistema parece focado em proteger o bebê do “vaso perigoso” que é a mãe, por meio de inúmeros exames e intervenções.

O resultado é que muitas mulheres recebem o rótulo de “falha em progredir”, levando a cesarianas ou partos instrumentais, internalizando a sensação de terem falhado em seu próprio rito de passagem para a maternidade. Isso leva ao extravio de poder, pois a mulher, em seu momento mais vulnerável e poderoso, sente-se traída pelo sistema que deveria protegê-la.

A experiência de um parto fisiológico natural, em contraste, onde as mulheres sentem segurança (em casa ou em centros de parto), permite que os hormônios trabalhem de forma ideal. A ocitocina (hormônio do amor) e as beta-endorfinas (analgésico natural) trabalham em um ciclo de feedback, atingindo o pico juntas no momento do nascimento. Mulheres que vivenciam isso frequentemente relatam o pico como um êxtase, comparável a “mil orgasmos”, e expressam o desejo de repetir a experiência.

O Terceiro Rito: A Menopausa

O terceiro rito de passagem feminino é a menopausa. De acordo com uma perspectiva baseada em tradições nativas americanas, este estágio marca a mulher se tornando o seu poder, após ter praticado seu poder na menarca e o incorporado no parto.

Com a queda dos níveis de estrogênio, o “véu de agradabilidade” cai. A mulher se liberta da necessidade de agradar e cuidar excessivamente dos outros, assumindo uma postura mais livre e autêntica, o que pode ser mal recebido pela sociedade e por parceiros que esperavam a mulher no papel maternal codependente.

A jornada da mulher pode ser vista como paralela aos ciclos naturais: Menina (Primavera), Mãe (Verão), Maga (Outono) e Anciã/Crone (Inverno). A sabedoria da mulher mais velha, que integrou todas essas experiências, é essencial e deveria ser a liderança, em vez de valorizar apenas a juventude.

Preparação e Autodefesa

A maior barreira para um parto empoderador é o medo programado, alimentado pela mídia que retrata o nascimento como um evento traumático e médico. A reprogramação da mente subconsciente é fundamental, o que inclui evitar narrativas negativas sobre parto.

Quando se trata de gestação, os véus entre os mundos estão mais finos, tornando a mulher grávida altamente suscetível. É crucial protegê-la de conflitos e negatividade, pois o bebê absorve não apenas o que a mãe come, mas também seu estado emocional e energético.

Para quem busca um parto fisiológico, a melhor chance reside em optar por partos domiciliares ou em centros de parto com uma equipe de parteiras com quem haja profunda conexão. Em ambientes hospitalares, é vital ter um defensor de parto (birth advocate) que possa proteger o espaço e a mulher contra intervenções desnecessárias ou não baseadas em evidências, como a epidemia de induções precoces.

Para quem deseja trabalhar com mulheres nessas fases, o chamado é sentido profundamente; envolve o desejo de ouvir e honrar histórias de nascimento, buscando ir além do conhecimento puramente físico, em direção ao sagrado e à cura de traumas.

A Importância da Conexão Mãe-Bebê

É vital honrar a díade mãe-bebê por pelo menos dois anos. O bebê e a mãe compartilham o mesmo campo mórfico, acreditando que são uma única entidade. O pai tem um papel secundário no início, sendo a mãe a principal fonte de segurança física, emocional e neurodesenvolvimento nos primeiros anos de vida.

Perguntas Frequentes

  • Como a espiritualidade influenciou a escolha pela obstetrícia?
    A longa jornada de exploração espiritual, focada em cura, intuição e autoconhecimento, culminou na prática da obstetrícia como uma forma de honrar e apoiar os ritos de passagem femininos de maneira holística.
  • O que é o arquétipo da mulher “Maga”?
    A Maga é a fase da mulher que sucede a mãe, geralmente na meia-idade (50s/60s), quando o véu de “agradabilidade” hormonal (estrogênio) é removido, permitindo que ela se torne sua versão mais livre e poderosa, assumindo um papel de líder e sábia.
  • Por que o parto hospitalar tende a ser mais traumático?
    O ambiente hospitalar muitas vezes patologiza o processo natural, focando em intervenções de rotina não baseadas em evidências, o que pode levar a um sentimento de falha na mulher ao rotulá-la como “baixo risco” em vez de “saudável”.
  • É possível ter um parto empoderador no hospital?
    É possível, mas as chances são muito maiores em um ambiente de parto mais íntimo e de confiança (como em casa ou em centros de parto com parteiras independentes). Se for no hospital, é crucial ter um advogado de parto (advocate) para proteger o espaço.
  • Qual é a importância de evitar histórias de complicação durante a gravidez?
    O estado emocional da gestante afeta diretamente o bebê. Ouvir histórias negativas cria medo programado e ansiedade, o que pode ser absorvido pelo feto, sendo mais benéfico focar em narrativas positivas e no preparo mental.

Agradeço imensamente por esta conversa nutritiva. Continuar a jornada de autoconhecimento e a educação sobre os ritos de passagem é fundamental para transformar a experiência da mulher no mundo.

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